quarta-feira, 22 de abril de 2009

Face mais perversa da recessão, desemprego está longe do fim do túnel

A face mais perversa da recessão é o desemprego. Às vezes, nem os números frios das estatísticas conseguem dar conta da severidade do mundo real. Nos últimos meses tornaram-se comuns casos de famílias que conheceram quem perdeu emprego em razão da crise econômica, agravada no Brasil pela equivocada política praticada pelo governo Lula. Quem não conhece uma?

Os resultados mais recentes sobre o desempenho do mercado de trabalho ajudam a dimensionar a dramaticidade do que vem ocorrendo. Desde outubro do ano passado, quando a crise atingiu sua fase mais aguda, foram eliminados 692 mil empregos no país. Em razão disso, o estoque de empregos gerados na economia brasileira nos 12 meses mais recentes caiu de 1,95 milhão em outubro para 840 mil em março – queda de 57% em apenas um semestre.

O governo comemorou os resultados de março. De fato, é ótimo que, pelo menos, não tenham sido registrados os assustadores números negativos de novembro, dezembro e janeiro, quando a soma de vagas cortadas alcançou 797 mil. No entanto, é preciso ter clara a dimensão do que está ocorrendo, a fim de que não se subestime as dificuldades, mas também para que não se supervalorize as conquistas. Ainda é preciso fazer muito para deter o fantasma do desemprego.

Em março foi registrado saldo positivo de 34.818 vagas. É a média mais baixa para o mês desde 2003, época em que o governo Lula submetera o país a uma dose cavalar de juros para debelar risco inflacionário alimentado ao longo da eleição do candidato petista. O saldo médio anotado pelo Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) para meses de março é de 92 mil postos abertos. Ou seja, a marca deste ano representa apenas 38% da média histórica – considerando-se os dados disponíveis, isto é, a partir de 2000.

No trimestre, o saldo foi negativo, algo inédito até então. Foram 58 mil vagas a menos. A média para o período é de 290 mil oportunidades geradas, sendo que, em 2008, haviam sido criadas 554 mil vagas, na melhor marca até agora.

O mais grave é que o desemprego é mais intenso em setores que pagam os melhores salários, caso da indústria, ou ocupam pessoas que, de outra forma, poderiam estar inchando os já combalidos centros urbanos, caso da agropecuária.

O setor primário da economia entrou antes na crise, mas já começou a dar sinais de recuperação, embora ainda tímidos se comparados à hecatombe que foram os seis últimos meses. O saldo de empregos ceifados na agropecuária desde outubro alcança 227 mil. O desempenho recente da balança comercial do agronegócio, muito prejudicada para retração econômica mundial, não sugere melhora.

Na indústria da transformação, o pior parece ainda estar longe de ter passado. Em seis meses foram limados 492 mil postos de trabalho no setor secundário da economia. Desde novembro, o desempenho mensal situa-se em terreno negativo. Em todo o segundo semestre de 2008 o indicador em relação ao mês anterior já ficara no vermelho – com exceção de setembro, quando houve estabilidade (+0,1%) – e lá prossegue desde então.

Em razão disso, o Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial) avalia que "se a política econômica do governo brasileiro não agir de forma mais rápida e eficaz para a recuperação do crédito e do ânimo dos consumidores, o nível de ocupação na indústria brasileira poderá sofrer, infelizmente, um forte revés em 2009".

A situação só não está de todo dramática porque a massa de rendimento real dos ocupados vem se sustentando, graças à manutenção dos ganhos dos assalariados. As razões, aponta a Fundap em recente análise de conjuntura, são a queda da inflação nos últimos meses e os acordos salariais pré-crise, que conseguiram incorporar ganhos de produtividade nas principais regiões metropolitanas do país. Some-se a isso os aumentos reais do salário mínimo, garantidos pela sistemática em vigor.

Nada disso, porém, tem conseguido suplantar a severidade da crise. Em estudo recente, a FGV mostrou que em apenas um mês – janeiro passado – 756 mil pessoas deixaram a faixa de renda classificada como sendo de classe média e passaram para as classes D e E. Ou seja, em 30 dias a crise engoliu mais de 10% dos ganhos acumulados desde 2003. É sinal que a expansão do consumo alimentada a crédito barato e a distribuição de bolsas assistencialistas, que marcaram a fase de bonança do governo Lula, não têm fôlego suficiente para mudar a realidade brasileira.