quarta-feira, 20 de maio de 2009

Estado balofo é presente de grego de Lula para sucessor

Custa crer que o presidente Lula leve a sério a tese, cada vez mais propalada, de brigar por um terceiro mandato consecutivo. Menos por sua índole e muito mais por um forte instinto de preservação: ele sabe que o país não agüentaria mais quatro anos sob seu comando. Sabe, mais ainda, que sua gestão tornou-se pródiga em semear abacaxis que tornarão a vida de seu sucessor um martírio; só isso explica a balbúrdia em que se transformaram as contas do governo federal nos últimos meses.

A cada mês sucedem-se novos desatinos. Os resultados acumulados no primeiro quadrimestre deste ano estão lotados deles. O mais gritante: em apenas 120 dias foram gastos R$ 30 bilhões a mais apenas com custeio. Sob este nome incluem-se despesas como pagamento de salários, aposentadorias, benefícios assistenciais e, ainda, passagens, consultorias, cafezinhos e cópias xérox, para ficar apenas em exemplos mais palpáveis.

Note bem: são R$ 30 bilhões a mais. O total de gastos primários foi muito maior e somou R$ 225 bilhões entre janeiro e abril, segundo informações extraídas do Siafi, o sistema que acompanha pari passu a execução orçamentária do governo federal. É difícil para qualquer mortal mensurar o que isso significa – passou de milhão tudo parece ficar mais ou menos igual.

Troquemos isso, então, em miúdos. Com o dinheiro dá para fazer um cestão de obras grandiosas, daquelas de entrar para a história. O trecho Sul do Rodoanel – que o governo paulista está construindo para retirar o tráfego pesado de dentro de São Paulo e, com isso, beneficiar o transporte de cargas de todo o país que por ali passam – custa R$ 3,6 bilhões e tem 11 mil empregados. A usina hidrelétrica de Santo Antonio, a ser construída em Rondônia, irá custar R$ 12 bilhões e gerará cerca de 40 mil empregos.

Uma conta simples mostra que com o “troco” que o governo Lula gastou a mais com salário, cafezinho, passagens etc. dava para construir dois Rodoanel e mais duas usinas do porte de Santo Antonio (em capacidade instalada, elas equivaleriam a meia Itaipu). Agora, examine ao seu redor e responda: esta montanha de dinheiro extra torrado entre janeiro e abril fez diferença no serviço que o governo lhe presta? De todos os ângulos que se olhe, não há o que justifique a necessidade de tamanho salto.

Gastos públicos adicionais costumam ser bom antídoto em época de crise econômica e recessão como a que atravessamos. Mas tais despesas devem ser bem direcionadas e, mais que isso, devem ser ajustadas a fazer frente a uma situação que pode até demorar, mas passa.

Por isso, nada mais inadequado do que injetar ânimo numa economia momentaneamente abatida com gastos que perdurarão por décadas. É como tratar um doente, tirá-lo da fase aguda da moléstia, mas deixá-lo perpetuamente contaminado pela droga. É o que está sendo feito com o Estado brasileiro neste momento: há uma bomba-relógio plantada no seu interior e que, dia após dia, libera uma dose nova de toxina no organismo.

Só com pessoal, o gasto deve atingir 5,6% do PIB neste ano, algo inédito na nossa história recente, segundo estudo capitaneado pelo economista Raul Velloso e divulgado por O Estado de S.Paulo em sua edição de ontem.

O governo federal tinha alternativas muito melhores. Poderia usar vitamina em vez de droga. Deveria ter acelerado os investimentos no lugar de turbinar os gastos comezinhos que se vão no dia-a-dia da máquina. Mas não: nestes quatro meses, os investimentos aumentaram menos de R$ 700 milhões. Isso significa que o que foi gasto a mais em despesas correntes apenas nos três primeiros dias do ano equivale a todo o investimento extra feito em todo um quadrimestre.

Está claro que o governo do PT aposta no horizonte imediato – salário a mais no bolso produz sensação instantânea de satisfação. E assim fará daqui até a eleição. O mais novo exemplo disso está na primeira página da edição de O Globo de hoje: o governo federal vai conceder 600 mil benefícios do Bolsa Família a moradores de rua, remanescentes de quilombos, indígenas e acampados da reforma agrária ainda não beneficiados pelo programa. O Bolsa Família tornou-se, definitivamente, o “bolsa-esmola” de que o PT tanto alcunhava os programas de transferência de renda no passado.