quarta-feira, 6 de maio de 2009

Indústria carimba passaporte do país para a recessão

A economia brasileira foi definitivamente despachada para a recessão com a revelação do desempenho da indústria nos três primeiros meses do ano, feita nesta terça-feira pelo IBGE. Com o principal motor do sistema produtivo em marcha a ré pelo segundo trimestre consecutivo, torna-se inexorável que todo o restante da economia também tenha fechado o período entre janeiro e março no negativo. A dúvida, agora, repousa apenas na magnitude da retração.

Desde a eclosão da fase mais aguda da crise, em setembro do ano passado, a indústria brasileira já encolheu 16,7%, algo inédito em 18 anos. Há cinco meses a produção mensal recua, quando comparada a igual mês do ano anterior. O copo do setor industrial está meio vazio, embora o discurso oficial seja o de que o pior ficou para trás e ele já esteja enchendo.

A análise mais cuidadosa dos dados sugere cautela diante do clima eufórico que vigora nas últimas semanas, com toda a pinta de bolha de sabão. O melhor é não embarcar na viagem – como fez ontem o ministro Guido Mantega – porque a maionese pode estar estragada. Na visão oficial, a partir de março a economia já está se recuperando, já voltou a "crescer e acelerar". Será?

Vinicius Torres Freire, na Folha desta quarta-feira, cuida de jogar água na fervura. Busca no meio de tantas estatísticas as que melhor espelham como caminha a humanidade. E mostra que o ritmo da indústria como um todo é, na verdade, decrescente. De dezembro para janeiro, ela crescera 2,1%; no mês seguinte, 1,9%. Agora, de fevereiro para março, tal desempenho baixou a 0,7%. A curva aponta para baixo.

Na indústria da transformação, segmento mais dinâmico do setor secundário, o ritmo já é zero: de 2,1% em janeiro, o crescimento passou a 1,4% no mês seguinte e, agora, estagnou. Entre fevereiro e março, a indústria da transformação avançou apenas 0,06% – ou seja, não avançou.

Ainda mais revelador é que um dos propulsores do crescimento recente, a indústria automobilística, já mostrou que perdeu ímpeto em abril. Pode ser uma indicação de que o singular combustível "anticíclico" do governo Lula esteja, afinal, mostrando seus limites. A maior suspeita sempre foi de que os incentivos tributários apenas resultariam em antecipação de consumo e não em ânimo adicional no sistema econômico. E tal injeção só se obtém por meio de investimento produtivo.

Mostra de que as medidas "anticíclicas" do governo petista podem estar furadas é que a produção de bens de capital, ou seja de novas máquinas e equipamentos destinados a aparelhar linhas de montagem, desabou no primeiro trimestre do ano: a queda foi de 21% sobre igual período de 2008. O resultado pôs fim a uma série de 22 trimestres seguidos de alta.

O próprio IBGE, que prefere buscar ângulos mais róseos na sua apresentação de dados, admite que o setor industrial "voltou a operar em patamar muito próximo ao do segundo trimestre de 2004". Isso significa que o setor mais potente da economia brasileira retrocedeu aos níveis pré-crise, vendo todos os ganhos da bonança engolidos na velocidade da luz.

Igualmente indicativo do retrocesso no perfil da economia nacional é o comportamento recente do nosso comércio exterior. A despeito do ótimo resultado de abril, que ajudou a elevar o superávit comercial no quadrimestre em 50%, a composição da pauta de exportações brasileira indica que o país está se especializando em vender ao exterior produtos primários, de menor valor agregado.

Segundo a Associação de Comércio Exterior do Brasil, pela primeira vez desde os anos 80 os produtos básicos superaram os manufaturados nas exportações. O peso das commodities nas exportações totais saiu de 33% em abril de 2008 para 45,4% no mês passado. Há um ano os manufaturados representavam 52% das vendas; agora, são 41%. É uma mudança espantosa.

Mas não é nos números frios que está a tradução mais dolorosa da crise. É na constatação de que, neste ano, o país não gerou uma única nova vaga de emprego. A julgar pelo que prevê o governo, estacionamos no emprego zero. Mas, como ainda não se conhece o desempenho mais recente do mercado de trabalho, ainda estamos no prejuízo: o saldo mantém-se negativo, com 58 mil empregos ceifados no trimestre. É a face humana das máquinas que, dia após dia, deixam de produzir em razão da recessão. Sem a indústria, o desemprego não cai.