segunda-feira, 11 de maio de 2009

O copo meio vazio da economia brasileira

Depois de ter previsto uma marolinha e ter se deparado com um vagalhão, o governo Lula parece, agora, também começar a se assustar com o tamanho da crise na qual estamos metidos, embora sustente no discurso que o crescimento já está no horizonte. Infelizmente, não há sombra de que esteja.

A esta altura, o que é certo é que o país está em recessão, chancelada pelo recuo expressivo da indústria no primeiro trimestre, que se somou à queda anotada nos três últimos meses de 2008. O que não se sabe ainda é o tamanho do tombo: o número oficial só sai em 9 de junho, mas as estimativas só crescem.

O desempenho da arrecadação federal, com perda de cerca de 7% neste ano, sugere que a queda na economia é expressiva. Ontem, O Estado de S.Paulo especulou que a retração no primeiro trimestre pode ter chegado a 3%, superando em muito as primeiras previsões da equipe econômica de Lula.

Apenas com o que já se sabe que ocorreu na indústria, já é possível inferir uma redução de 1,9% no PIB. Com serviços e agricultura estacionados, este seria o piso para a queda. Como é certo que estes dois setores não passaram incólumes pela crise, a retração deverá ter sido maior.

Se os prognósticos mais pessimistas se confirmarem, somado à queda de 3,6% anotada na economia entre outubro e dezembro do ano passado, o resultado acumulado nos últimos seis meses equivaleria a um recuo anualizado de 12,6% no PIB. Diante disso, será difícil a economia brasileira terminar 2009 com crescimento.

Há quem antecipe cenários complicados até mesmo em períodos para os quais a maioria só antevê sobressaltos mais brandos, como o segundo semestre deste ano. José Márcio Camargo sustenta, na IstoÉ desta semana, que os efeitos benéficos da redução do IPI no desempenho de alguns setores da indústria já já irão cobrar seu preço.

Ele prevê queda na demanda pelos mesmos bens que agora se beneficiam dos incentivos tributários, como eletrodomésticos e carros. Isto porque as pessoas estariam correndo às lojas e apenas precipitando o consumo. “Como as empresas tentam antecipar o comportamento do mercado, já estão demitindo e o desemprego, aumentando. Este processo está apenas começando”, escreve o economista da PUC do Rio.

Mais grave é o que se vê nos investimentos da própria indústria, que, para o Iedi, entraram em “colapso”, ilustrado pelo forte recuo na produção de bens de capital. Foi este o segmento que impulsionou a indústria nos últimos dois anos e, em consequência, garantiu os resultados positivos da economia como um todo no período.

“O investimento na economia brasileira está tendo um declínio de grandes proporções. As variações do investimento têm o poder de determinar à frente os aumentos de renda e emprego, razão pela qual os indicadores negativos em bens de capital devem ser tomados com extrema preocupação”, analisa o Iedi, em sua mais recente carta de conjuntura.

Os números recomendam tal desconforto. Em seis meses a indústria de bens de capital brasileira perdeu um terço do que era. Alguns casos são dramáticos: só neste ano, o setor de máquinas e equipamentos para extração mineral e construção caiu 62%; material eletrônico e equipamentos de comunicação, 49%; veículos e equipamento de transporte, 48%.

E não há sinais de reação. Indicadores antecedentes, como o consumo de energia, sugerem que a queda manteve-se em abril. Não é só a produção interna que está caindo: a importação de bens de capital também recuou 5,7% em abril sobre igual mês do ano passado.

É justamente esta redução nas compras ao exterior que deve ajudar o PIB brasileiro a não se desintegrar de vez neste começo de ano. Para Luis Carlos Mendonça de Barros, o setor externo deverá acrescentar um ponto ao PIB do período. “Estamos crescendo por conta da demanda existente em outras economias”, escreveu ele na edição de sexta-feira da Folha de S.Paulo. Diante disso, cabe a indagação: e se o dólar continuar a mergulhar? Um efeito direto será a retomada de importações, subtraindo pontos do PIB.

Não são poucos os analistas que alertam para a precipitada euforia baseada no comportamento algo esquizofrênico do mercado de capitais: não há, no mundo real, fundamento que ancore arrancada tão robusta. Embora a crise atual tenha características muito particulares, ainda vale o cotejo com o que aconteceu em 1929. Naquela ocasião, ocorreram quatro ciclos de recuperação e queda antes da decolagem definitiva da economia americana. Numa situação assim, o mínimo que se recomenda é máxima cautela.