segunda-feira, 1 de junho de 2009

Dólar a 1,99: negócio pra China

Os bons resultados da balança comercial brasileira (nesta segunda-feira serão divulgados os números de maio) acabam por encobrir os efeitos mais perversos que o câmbio valorizado tem imposto à economia local. Dólar barato é bom para quem quer comprar mais do exterior, para quem quer viajar para fora, para os concorrentes estrangeiros. Mas está longe de ser saudável para o desenvolvimento econômico nacional; para a geração de emprego, então, é um horror.

Quanto mais o dólar cai, mais caro fica vender para o exterior; o comprador tem que desembolsar maior quantidade da moeda americana para cobrir os preços em reais. A contraparte disso é a maior atratividade que ganham as importações, com impulso extra para concorrerem com o produto local. As empresas brasileiras amargam hoje um duplo problema: o mercado interno não absorve sua produção e o câmbio impõe-lhes dificuldade para exportar.

O Brasil só tem conseguido acumular saldos positivos na balança comercial porque nosso mercado consumidor e nosso parque produtivo, ambos às voltas com os efeitos da recessão, estão demandando menos importados.

Com o país travado, as compras feitas junto ao exterior caíram num ritmo mais intenso do que o que se verificou na queda das exportações. Por isso, acumulamos superávits até agora – algo que deve manter-se nos resultados que virão a público hoje. Até maio, enquanto os embarques caíram 20%, as importações recuaram 25%.

Ocorre que as exportações se valeram até agora da elevação das cotações das commodities e dos níveis mais altos em que se encontrava o dólar frente ao real. Não se sabe até aonde vai a primeira condicionante; a segunda foi definitivamente para o brejo depois que, na semana passada, a moeda americana rompeu o piso psicológico de R$ 2. Neste ano, o real é a moeda que mais se valorizou no mundo: subiu 15,5% até agora.

Sem o impulso do câmbio desvalorizado, as exportações brasileiras tendem a perder brilho, comprometendo ainda mais a geração de emprego no país. O preço pode sair caro. As vendas ao exterior como um todo estão caindo, como era de se esperar num quadro de crise econômica disseminada. Mas o setor que mais retrocede é o de bens manufaturados: enquanto, no geral, as exportações caíram 17% até abril, eles desabaram 30%.

Neste segmento estão os produtos que carregam maior valor agregado, saem das linhas de montagem de fábricas mais modernas, ocupam os trabalhadores mais bem remunerados. Na lista incluem-se celulares, automóveis, aviões e máquinas, entre outros. Em anos recentes, este segmento respondia por 60% das exportações brasileiras; neste ano, a fatia já caiu para 45%.

Na outra ponta, os produtos básicos – que vão de petróleo bruto a soja em grão e açúcar, por exemplo – vêm ganhando cada vez mais peso na pauta exportadora brasileira. Se antes tinham participação entre 25% e 30%, hoje já respondem por 40% dos embarques. Não deixam de ser bens importantes, mas claro está que o valor que somam à economia nacional em termos de geração de empregos e tecnologia é bem menor do que o dos manufaturados.

Com o dólar barato, algumas empresas acabam se vendo impossibilitadas de vender ao exterior. Do ano passado para cá, quase 600 companhias nacionais deixaram de exportar. Não se pense que só as pequenas sucumbiram: entre as que exportam mais de US$ 60 milhões, 18 já pularam fora (isso equivale a 13% deste grupo de elite).

O preço disso surge na forma de perda de fatias crescentes em mercado importantes. Em sua edição de sexta-feira, a Folha de S.Paulo mostrou que os produtos chineses estão roubando espaço dos brasileiros na Argentina. Neste ano, a China ganhou participação entre os consumidores argentinos em detrimento do encolhimento brasileiro em pelo menos seis segmentos: papel, calçados, farmacêuticos, instrumentos fotográficos, óticos, médicos e musicais, brinquedos e acessórios de vestuário. Menos consumo lá é menos geração de emprego aqui.

Há um fator estrutural que explica a valorização do real: a queda generalizada do dólar no mundo. Em muitos países, principalmente do bloco em desenvolvimento, a moeda americana perdeu mais de 10% do valor neste ano.

Mas há um fator caro ao Brasil: a elevada taxa de juro que ainda se pratica por aqui. Embora tenhamos perdido a liderança no ranking mundial, ainda pagamos uma taxa de despertar cobiça em qualquer investidor ao redor do mundo. Os 10,25% ao ano da Selic garantem juro real de 6% anuais num momento em que boa parte do mundo pratica taxas perto de zero para impulsionar a demanda e reativar a economia. Se a este ganho soma-se o da valorização do câmbio, eis que temos um negócio da China para os investidores estrangeiros em papéis.

Lula e sua candidata parecem ignorar as implicações de tudo isso para o futuro do país. Tentam fazer crer que este é um problema do Banco Central, do Ministério da Fazenda e mesmo dos bancos privados. Deveriam perceber que este é um debate fundamental para as pretensões do país, o qual a oposição não tem se furtado a travar.