quarta-feira, 10 de junho de 2009

E Lula nos guiou à recessão...

A fatos não adianta contrapor argumentos: pela segunda vez no governo Lula, o Brasil está em recessão. São seis meses – pelo menos, já que indicadores posteriores a março continuam a mostrar uma situação pouco animadora – com a atividade econômica encolhendo, as fábricas produzindo menos, o desemprego aumentando. Esta é a realidade brasileira desde setembro do ano passado.

Os resultados divulgados ontem pelo IBGE confirmaram que, entre janeiro e março, a economia brasileira apresentou queda pelo segundo trimestre consecutivo: 0,8% em relação aos três meses imediatamente anteriores. No quarto trimestre de 2008 a retração já havia sido de 3,6%. A este fenômeno econômico convenciona-se chamar recessão. Pura e simples, sem adjetivos – em maio, a FGV já havia apontado isso em minúcia.

Na comparação com igual período do ano anterior, o PIB recuou 1,8% entre janeiro e março, pior resultado desde o último trimestre de 1998. Em consequência, a produção de bens e serviços recuou para o nível do segundo trimestre de 2007. Tudo somado, é a pior recessão desde 1990, no governo Collor.

É rotunda perda de tempo ficar dizendo agora – como vem fazendo o governismo nos últimos dias e ontem repetiu o tempo todo – que os critérios que definem uma recessão não são precisos, que as estatísticas medem o passado ou (só faltou esta) são como biquínis: escondem o essencial. Depois da teoria da marolinha, que se mostrou falsa como nota de três reais, agora vem a teoria do retrovisor. Quando este governo vai sair da teoria à prática?

Por que não observar criteriosamente o que os números do PIB mostram e agir para evitar que mais brasileiros percam seus empregos, mais firmas deixem de produzir, mais exportadores deixem de ocupar espaços no mercado global com produtos nacionais? Este é o recado que os números do IBGE trazem: nossos setores econômicos mais dinâmicos minguaram na crise. Indústria, agropecuária, exportações – todos os segmentos que impulsionaram a economia em períodos recentes foram mal.

No fim do governo Fernando Henrique e início da gestão Lula, era o campo quem dava maior contribuição ao crescimento da economia como um todo. O ciclo seguinte baseou-se no aumento significativo do nosso comércio exterior, com a arrancada das exportações brasileiras num momento em que o mundo todo consumia sem parar. Já os resultados dos últimos dois anos deveram-se à indústria, alimentada pelo crescimento do nosso mercado interno. Nada disso funcionou agora.

Para piorar, os investimentos foram os mais avariados pela crise. Em relação ao trimestre anterior, a formação bruta de capital fixo (palavrão que, em economês, significa investimentos em máquinas, equipamentos e construções) caiu 12,6%, depois de já ter recuado 9% no fim do ano passado. Foi a maior queda verificada nessa base de comparação desde o início da série, ou seja, desde 1996. Em relação ao primeiro trimestre de 2008, também houve redução significativa: 14%. Em consequência, a taxa de investimento decresceu a 16,6% do PIB, quebrando uma linha ascendente que vinha se desenhando desde o primeiro trimestre de 2005.

Diante de desempenho tão ruim dos investimentos, da indústria e das exportações (que caíram 3% e 16%, respectivamente, sobre o trimestre anterior), a dúvida que surge é: estamos prontos para retomar o crescimento?

“A indústria, motor de crescimento de qualquer economia moderna, puxou o PIB para baixo pelo lado da oferta. O investimento, variável fundamental para o crescimento econômico sustentado (com aumento da capacidade instalada), puxou o PIB para baixo pelo lado da demanda. (...) O resultado só não foi pior devido às medidas fiscais adotadas pelo governo (isenção de IPI). Porém essas medidas têm efeito apenas no curtíssimo prazo e ainda podem deteriorar as contas públicas”, avalia a Assessoria em Finanças Públicas e Economia do PSDB.

O PIB do primeiro trimestre de 2009 inaugura uma fase inédita na economia brasileira, de desempenho dependente do consumo. Para um país ainda carente de investimento e de modernização produtiva, o risco é alto. Nosso sucesso está sujeito a gastos mais altos das famílias e do governo, ambos com claras limitações: as primeiras pela renda que tende a se retrair com o avançar da crise e o segundo pelo descontrole fiscal que já se manifesta. O consumo, sozinho, é insuficiente para sustentar o crescimento; estímulos mais consistentes, como o aumento do investimento público, inexistem.

É ótimo que o PIB tenha caído menos do que se estimava. Mas, queiramos ou não, ele caiu – e já por dois trimestres seguidos. Ao governo Lula, o melhor a fazer agora é entender o recado das estatísticas e atuar para que o parque produtivo nacional reaja. Do contrário, quando o tsunami passar, estaremos pendurados na brocha do consumo, vendo o trem do investimento passar, sem lugar na locomotiva da recuperação industrial que, um dia, virá.