quarta-feira, 24 de junho de 2009

Mercado de trabalho continua precário

O mercado de trabalho voltou a apresentar saldo positivo na criação de novas vagas de trabalho em maio. Isso é bom. O problema é que o ritmo atual está muito abaixo das necessidades de geração de emprego no país e ainda longe de repor as vagas ceifadas pela recessão. No mês, as contratações superaram as demissões em 131,6 mil; é o pior resultado para meses de maio em dez anos.

O resultado de maio está muito distante do alcançado um ano antes, quando o saldo foi de 203 mil empregos. Também ainda está longe de tisnar o rombo sofrido pelo mercado de trabalho desde a eclosão da crise, em setembro do ano passado. Para os sete meses desde então, o saldo ainda é francamente negativo, com 515,8 mil postos de trabalho fechados. Estados pobres como Maranhão, Pará e Sergipe continuam sem conseguir gerar empregos.

De 2000 até 2008, o saldo médio para o período entre janeiro e maio foi de 692 mil empregos abertos, segundo o Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados). Neste ano, o acumulado caiu para 180 mil (ante 1,05 milhão em 2008). Isso significa que o número de 2009 representa apenas 26% da média histórica para os cinco primeiros meses do ano. Já o saldo do mês equivale a 68% da média histórica para maio.

Outro dado que mostra a débâcle do mercado de trabalho é o que expressa o resultado acumulado nos 12 meses mais recentes. Em setembro do ano passado, o país exibia o majestoso saldo de 2,1 milhões de empregos criados nesta base de comparação. Hoje, o total despencou para 580 mil postos gerados. Como se vê, é muito pouco para um mercado que precisa absorver em torno de 2 milhões de novos jovens por ano.

O calcanhar de Aquiles do mercado de trabalho brasileiro continua a ser a indústria, que não consegue sair da estagnação. Em maio, pelo segundo mês consecutivo, ao total de contratações correspondeu um número praticamente idêntico de demissões – agora o saldo foi de irrisórias 700 vagas, que se somaram às 183 unidades de abril. Com isso, as fábricas acumulam um saldo negativo de 490 mil postos de trabalho cortados desde o início da recessão.

Sete dos 12 setores industriais tiveram saldo negativo em maio, ou seja, continuaram a demitir mais gente do que contrataram. Desde setembro isso não mudou e em dois deles a situação é mais crítica: mecânica e metalurgia. Ganha um doce quem adivinhar por quê. A resposta: estes segmentos são fornecedores de aço e peças para equipamentos em geral. Isso significa que padecem diretamente da queda acentuada dos investimentos, expressa, entre outros, nos resultados do PIB referentes aos dois últimos trimestres.

Com a indústria sem contratar, o mercado de trabalho como um todo se torna mais frágil, oferecendo condições mais precárias para os empregados. É o que mostrou o Valor Econômico na sua edição de segunda-feira. Analisando os dados do Caged até abril, o jornal constatou que “a contratação líquida [ou seja, a diferença entre demissões e admissões] ficou concentrada em vagas que ofereciam menores salários e entre trabalhadores com maior nível de escolaridade”.

Em miúdos: enquanto no período foram criadas 332 mil vagas pagando salários de até um salário mínimo e meio, 283 mil postos com remuneração superior a este patamar foram fechados. As empresas demitem quem ganha mais e contratam profissionais com boa formação – em grande disponibilidade no mercado neste momento – para receber menos.

É o que no jargão se chama de “precarização” e equivale a uma piora generalizada nas condições de trabalho. Nesta quinta-feira o IBGE divulgará os resultados da pesquisa mensal de emprego referentes a maio e nela, como tem acontecido em todos os levantamentos recentes, a fragilidade ficará igualmente expressa. Isto porque também é crescente o exército de pessoas no país que ganham menos de um salário mínimo (sub-remunerados) e que, mesmo querendo, não conseguem ocupação com jornada de pelo menos 40 horas semanais (subocupação).

Para não ser acusada de só criticar, a oposição tem proposta clara para estancar a crise no emprego: reduzir encargos da folha salarial de forma seletiva. Nem é o caso de diminuir alíquotas. Isto pode ser feito por meio de subsídio ou restituição de parte da contribuição já paga. E de maneira focada: só para setores mais sujeitos à competição internacional (como a indústria) e vinculada ao número de empregados e da massa salarial. Assim, premia-se quem mantém ou contrata mais mão-de-obra e quem não reduz salários.