segunda-feira, 22 de junho de 2009

Fim de governo, fim de feira

A oposição quer ver Lula pelas costas. Mas claro está que não quer isso a qualquer custo; gostaria de herdar a máquina pública em condições mínimas de funcionamento em 2011. Quem parece não se importar muito com os ares de fim de feira que vão tomando os meses que faltam para a gestão petista terminar é o próprio governo e, com seu salvo conduto, a base aliada no Congresso. A fatura a pagar está longe de ter preço de xepa.

Vive-se nas últimas semanas certo clima de euforia e anestesiamento em relação às condições gerais da nossa economia. Com o biombo de uma recuperação rápida, mas que leva todo jeito de ser ilusória, o governo optou por deixar o gasto correr solto e os partidos aliados, docemente constrangidos, ocuparam-se em pôr gasolina nesta fogueira. Nada que combine com o mundo real ou com a recessão mais real ainda em que estamos metidos – fera de dentes afiados que o governismo tenta vestir com pelagem de gatinho manso.

A retração não cede, as empresas produzem cada vez menos, o desemprego avança mais. E o que o governo faz? Até aqui se limita a assistir a caravana passar. É fato que promoveu algumas ações, como as desonerações tributárias sobre produtos como carros e fogões. Mas esteve longe de traçar políticas de longo alcance. O país manteve-se preso ao presente; no futuro a gente pensa depois... De preferência, quando o governo acabar.

Só agora, com o calo da queda da arrecadação apertando, o governo começa a falar em cortar despesas, a se crer no que disse Guido Mantega em entrevista publicada por O Estado de S.Paulo na edição de ontem. Bem-vindo, ministro. O risco é de já ser tarde demais: o descontrole da gastança no governo federal é uma realidade. E viceja a custa dos investimentos produtivos, que só fazem minguar – como ficou claro, mais uma vez, com a divulgação do PIB do primeiro trimestre.

As receitas com tributos caíram 6% nos cinco primeiros meses do ano, num ritmo muitas vezes mais rápido do que o da economia brasileira como um todo. Além disso, a análise esmiuçada dos resultados sugere que a situação em muitos segmentos é bem pior. Exemplos tomados aqui e acolá comprovam que a vida não anda fácil para quem insiste em produzir no Brasil (se o caso é de ganhar muito dinheiro com juros, aí a história muda).

Em Franca, um dos principais pólos calçadistas do país, 1/3 dos sapateiros estão desempregados; são 10 mil pessoas sem ter o que fazer. Trata-se de setor altamente empregador que padece com a concorrência das importações, principalmente as chinesas. É o mesmo terror que acomete a indústria têxtil: desde janeiro, à medida que o dólar foi ficando cada vez mais barato, o segmento também fechou mais de 10 mil vagas.

Mas nem gastos em disparada, nem desemprego decorrente da recessão, nem queda da arrecadação que a espelha parecem assustar os governistas no Congresso. Vive-se tempo de farinha pouca, meu pirão primeiro. Em sua edição de ontem, O Globo deu cores vívidas à irresponsabilidade com que a base aliada move-se nas votações em plenário. E a conta, quem paga? Eu, você, nós todos. E ela não é pequena.

O jornal mostra que cinco medidas provisórias enviadas pelo Executivo ao Parlamento neste ano saíram de lá muito mais gordas do que entraram. Quando chegaram à Câmara, os textos traziam estimativa de R$ 62 bilhões em gastos, subsídios e renúncias fiscais nos próximos 42 meses nas áreas de energia, construção civil, meio ambiente e funcionalismo. Saíram de lá custando 35% mais ou módicos R$ 84 bilhões. “A diferença equivale a 23 meses de custeio do programa Bolsa Família”, compara O Globo.

O mínimo que se espera do governo Lula nestes meses que faltam até que o comando do país transite a novas mãos é que não ponha a perder o caudal de conquistas que tantos benefícios trouxe à população ao longo da última década e meia. Tal como as coisas andam, não pararão de pé. No fim da feira acaba sobrando muita mercadoria estragada.