quarta-feira, 17 de junho de 2009

Os bodes expiatórios de Lula

Quando sai de Brasília, o presidente Lula parece pôr para fora todos os seus demônios. No exterior, então, move-se com tamanha desenvoltura que parece esquecer-se que chefia o governo de um país com 180 milhões de habitantes cujas vidas dependem, em boa medida, de suas decisões governamentais. Nessas horas aninha-se no cômodo figurino de eterno oposicionista. Foi o que aconteceu, mais uma vez, nesta semana em Genebra.

Em discurso, Lula apontou quem são, para ele, os culpados pela recessão brasileira. E jogou o fardo nas costas da indústria automobilística. Para o presidente da República, houve precipitação das empresas que, no epicentro da crise-monstro, no fim do ano passado, brecaram o ritmo de produção e optaram por queimar estoques antes de saber a quantas voltaria a rodar o consumo – àquela altura também com o freio de mão puxado.

Bobagem perder tempo constatando que o que Lula condena nas empresas é a atitude prudencial que qualquer empresário responsável adota num momento de crise e indefinição. É risível; a racionalidade dos negócios não comporta arroubos palanqueiros típicos do atual chefe de Estado brasileiro. O que interessa é avaliar se, no que lhes cabia, Lula e seu governo agiram, àquela altura da crise, da maneira anticíclica que ele esperava da indústria brasileira. É evidente que não.

Muito mais relevante para todo o conjunto da economia do que atos de agentes isolados, como é o caso das montadoras de automóveis, são as decisões de política monetária. Aqui está a se falar, primordialmente, dos juros, que afetam desde a vendinha da esquina até o investimento bilionário num novo negócio; é um preço básico.

E o que fez o Banco Central de Lula ao longo da crise foi muitíssimo mais deletério para a economia brasileira – e determinante para jogá-la em recessão – do que qualquer outro bode expiatório de que o governo venha a lançar mão agora.

No mesmo período em que as indústrias reduziam o ritmo e se resguardavam, o BC acelerava, comparativamente, os juros brasileiros, em direção oposta à de seus congêneres mundiais. O Brasil atravessou o tsunami da crise exibindo as mais altas taxas reais do planeta, enquanto o resto do mundo praticamente zerava-as.

Vale observar o que escreveu Antonio Delfim Netto – oráculo do governo Lula – na edição do Valor Econômico desta terça-feira. “Convém lembrar que, em setembro de 2008, quando a economia mundial estava se desintegrando e reduzindo sua taxa de juros, o hígido sistema bancário brasileiro, sem o conforto que poderia ter recebido do Banco Central, importou a crise: suspendeu o crédito interbancário, arrasou o setor real e teve de suportar o aumento da taxa de juros Selic recomendada pela mesma alta ‘ciência monetária’ do Copom.”

Se não consegue despir-se do papel de líder oposicionista, o presidente poderia pelo menos confiar menos no seu voluntarismo e olhar friamente para os ânimos de quem produz e gera emprego – sem onerar o contribuinte com a cobrança de impostos, como faz o governo – no país.

Sondagem realizada pela Fundação Getúlio Vargas ao longo dos dois últimos meses junto a 820 indústrias de transformação de 24 estados e divulgada ontem mostra que as incertezas quanto à evolução do mercado consumidor estão desestimulando novos investimentos em novas máquinas, equipamentos e instalações. Com a expansão da produção travada, o emprego não reage.

Não custa lembrar que juros são variável-chave para decisões empresariais, bem como sua contraface, a sobrevalorização da moeda nacional, decorrência imediata da política monetária. Na situação em que hoje estamos, sempre será mais interessante para o empresário brasileiro importar do que produzir internamente. A China nos agradecerá e nos estenderá tapetes vermelhos em quantos proto-encontros de cúpula houver.

O que o país vive nos últimos meses, em especial a recessão que já comeu 4,5% do nosso PIB e ceifou milhares de empregos, é consequência direta de decisões governamentais equivocadas e não de comportamentos de agentes isolados, como prefere crer o presidente. Se quer culpados pela retração, Lula os tem ao alcance das mãos: estão todos dentro de seu governo e não nas linhas de produção.