quarta-feira, 3 de junho de 2009

Real valorizado vai fazendo vítimas: indústria tomba e desemprega

Aqui e acolá a oposição vem sendo acusada de discutir o sexo dos anjos, pregar no deserto ou, pior que isso, assistir paradona o governo passar com a bola rumo ao gol. Algumas informações divulgadas nesta semana sugerem o contrário: os problemas apontados pelo discurso oposicionista encontram fiel contrapartida na realidade. É só ter olhos para ver. Os efeitos da superdose de juros sobre a produção local e as exportações brasileiras, com consequente baque na geração de emprego, é um deles.

Tome-se a míngua em que vive a indústria nacional, conforme mostrou o IBGE em sua pesquisa mensal relativa ao desempenho do setor em abril. No primeiro quadrimestre deste ano, as fábricas produziram 14,7% menos do que no mesmo período de 2008. É o pior desempenho desde 1991, ou seja, desde o malfadado governo Collor. Para quem gosta de numeralha, compensa ler os comentários oficiais do IBGE, que prima pelo realismo e pela crueza com que descreve a penúria industrial atual.

Quando se consideram os últimos 12 meses, a indústria brasileira passou a exibir queda acumulada de 3,9%. É a marca mais baixa para este indicador em 13 anos. Para se ter dimensão mais clara do mergulho do nosso parque produtivo, em outubro passado, no início da crise, o setor industrial crescia à taxa de 6% anuais. A reversão – de dez pontos percentuais – é cavalar. Não assusta que aí esteja o motor do desemprego: só neste ano, o setor já cortou 147 mil empregos; foram quase 500 mil ao longo dos seis meses de recessão.

Algumas leituras posteriores à divulgação dos números pelo IBGE, ocorrida na última segunda-feira, querem enxergar luz no fim do túnel no fato de a produção de máquinas e equipamentos (“bens de capital”, no jargão do economês) ter sido a que mais subiu (2,6%) na comparação entre abril e março. Irrelevância: crescer alguma coisa em cima de quase nada é o mesmo que coisa nenhuma. Compare-se isso à queda de mais de 11% acumulada por este segmento em fevereiro e março para se comprovar que estamos falando de um copo ainda bastante vazio.

Observar o comportamento dos bens de capital é válido porque serve para aferir o apetite do empresário para voltar a pôr dinheiro no seu negócio, retomar o investimento e gerar emprego apostando no crescimento futuro do país. E a forma mais adequada de tomar o pulso das fábricas e o efeito da recessão sobre elas é olhar o conjunto da obra, ou seja, o que ocorreu ao longo dos últimos meses. Desde janeiro, a fabricação de máquinas e equipamentos foi a que mais caiu: -22%. A produção de máquinas destinadas a equipar outras linhas de montagem desabou 37% comparada a abril de 2008. Como se vê, o “espírito animal” empreendedor está adormecido.

E o que isso tem a ver com a pregação oposicionista? O mau desempenho da indústria está ligado à queda das exportações, que, por sua vez, reflete problemas crassos no câmbio, causados, por seu turno, pelos altos juros praticados pelo Banco Central de Lula e Henrique Meirelles. O corolário é o desemprego. O raciocínio é longo e pode parecer escorado em silogismo rudimentar. Mas estudo do BNDES, divulgado na edição do Valor Econômico de terça-feira, põe a cereja da ciência neste bolo.

Pelo levantamento, metade – para ser mais exato, 51% no cálculo dos economistas do banco – das perdas ocorridas na produção industrial desde setembro está relacionada à queda na exportação de produtos manufaturados. Significa que, estivesse o governo Lula agindo a tempo e a hora para conter a valorização do real, a indústria teria sido bem menos avariada pela recessão e alguns milhares de empregos teriam sido salvos. É relevante ou não para a vida das pessoas?

A melhor ferramenta para segurar o câmbio e, assim, voltar a impulsionar as exportações é o machado do corte de juros. Enquanto os investidores em papéis estiverem dispondo do maná amealhado pelo BC, esqueça: o Brasil será inundado por dólares e o antigo patamar de R$ 2 será miragem distante do olhar. (Em maio, desvalorização mais juros renderam 10,6% ao capital especulativo que tenha vindo passear pelo país, segundo cálculo de Yoshiaki Nakano.)

Diante disso, não assusta que, já em maio, a balança comercial tenha se saído pior do que a encomenda, ampliando o ritmo de queda das exportações. Está lá: a maior redução (30% sobre o primeiro quadrimestre de 2008) foi a dos embarques de manufaturados, justamente os que mais empregam e pagam melhores salários. Aí está, escancarado, o quadro que a oposição não cansa de criticar.

Para zerar as perdas da crise até o fim do ano, a indústria precisaria multiplicar por quatro seu ritmo de crescimento atual. Fora de cogitação. Diante disso, o mais provável é que as fábricas produzam algo em torno de 6% menos do que em 2008. “Preocupado”, segundo fontes oficiais, o governo só vê a caravana passar: “A taxa de câmbio pode ser um fator de desestabilização e de incertezas nos próximos meses, diante de um processo lento de retomada do nível de atividade. (...) Na avaliação de técnicos do governo, a tendência continuará sendo de apreciação do real e o movimento pode perdurar até meados de 2010”, escreve Claudia Safatle na edição do Valor desta quarta-feira. No meio deste caminho de pedras e perdas, milhares de empregos terão ficado para trás.