segunda-feira, 27 de julho de 2009

Autodesconstruindo Miss Dilma

Em pânico com a hipótese de verem-se apeados do poder, após lambuzarem-se com as delícias palacianas, os petistas puseram-se a tentar construir um mito à altura de suceder Lula. Com o presidente à frente, tal tem sido a tarefa à qual o partido se jogou desde meados do ano passado. A escolhida para vestir o figurino foi Dilma Rousseff, de parcas ligações com o PT, de militância política obscura e cujo currículo tem mais incógnitas que respostas. Querem nos vendê-la como um poço de virtudes e eficiência. Não vale quanto pesa.

Este mês a revista Piauí começou a implodir a estátua de barro. Mostrou que aquilo que Dilma exibe como currículo e experiência acadêmica não se sustenta na realidade, é tudo mentirinha. Tanto na plataforma Lattes do CNPq – que abriga currículos acadêmicos, onde são consultados para avaliações oficiais – quanto na página da Casa Civil na internet constava que a ministra é mestre em Economia e doutoranda em Ciências Sociais, ambos cursados na Unicamp.

O repórter Luiz Maklouf Carvalho descobriu que nem uma coisa nem outra corresponde à verdade. A dissertação de mestrado que Dilma diz ter apresentado perante a Unicamp (“Modelo energético do estado do Rio Grande do Sul”) nunca existiu. Quanto ao doutorado, Dilma até passou por lá, sim, mas igualmente sem concluí-lo. Foi jubilada por decurso de prazo. Pega na mentira, a ministra desmentiu-se por meio de nota oficial: argumentou que, nos dois casos, apenas cursou os créditos, sem apresentar dissertação nem tese.

Bom lembrar que os objetivos primordiais de um mestrado ou doutorado são, exatamente, as apresentações da dissertação ou da tese. Disciplinas para obtenção de créditos constituem, em muitas instituições federais, parcela mínima desses cursos de pós-graduação. Não há demérito em não possuir tais títulos. O grave é a provável falsificação; tentativa de enganar quem?

Sobre o por que, diabos, seu currículo exibia duas mentiras, Dilma saiu-se com a desculpa petista padrão: não sei, não vi, não tenho nada com isso. Isso, embora a inclusão de dados na plataforma do CNPq exija senha, CPF e ainda cobre do informante atestado de veracidade dos dados fornecidos, sob pena de responder perante a lei em caso de inverdade. A ministra-candidata diz que não foi ela quem mentiu. Claro, deve ter sido algum aloprado.

Recentemente, Elio Gaspari também destacou a “relação agreste com a realidade” que a ministra alimenta em relação a seu passado político. Lembrou que Dilma renegou sua participação em ações armadas durante a ditadura, período do qual o jornalista é um dos mais dedicados pesquisadores contemporâneos: “O meu caso não é de ação armada. O meu caso foi de crime de organização e de opinião”. Gaspari a desmentiu: Dilma militou em duas organizações que, programaticamente, defendiam a luta armada, a Colina e a VAR-Palmares. Ambas queriam implantar por aqui um governo revolucionário – “popular”, num caso, “dos trabalhadores”, no outro.

Assim, é difícil, por hora, saber que trajetória pretérita tem Dilma a mostrar. Intelectualmente, exibe farsas como credenciais. Politicamente, renega a militância que na ditadura levou-a a viver escondida sob pseudônimos. Quem, afinal, é Dilma Rousseff?

Talvez não seja preciso ir tão longe para derrubar o mito (numa das acepções do Aurélio, “ideia falsa, sem correspondente na realidade”). Mais completa obra do gênero do país, com seus cinco volumes e mais de 6 mil páginas, o Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro, editado pela FGV, simplesmente ignora a existência de Dilma Vana Rousseff.

Dedicado a “identificar a composição das elites políticas, intelectuais, empresariais, militares, jornalísticas e outras, conhecer lideranças operárias e perceber o grau de participação destas elites e lideranças na esfera pública de poder”, o DHBB traz 6.620 verbetes. Até Sergio Naya tem o seu. (A José Serra são dedicadas cinco páginas e a Aécio Neves, duas, ambos antes de ocupar os cargos que hoje ocupam.) À altura em que o dicionário foi reeditado, em 2001, Dilma já respondera por secretarias de Estado no Rio Grande do Sul e comandara a Fazenda de Porto Alegre. Insuficiente para fazer história, assim como sua militância política.

Se o passado é nebuloso, atentemo-nos ao presente, suficiente para que Dilma tivesse condições de exibir uma obra passível de escrutínio. Pelo que se vê até agora, o Programa de Aceleração do Crescimento, do qual ela ganhou a alcunha de “mãe”, já seria um bom exemplo de sua (in)ação. Mas sempre se pode argumentar que o PAC é obra ainda em progresso, cujos frutos, acredite, brotarão, é só esperar para ver. Dê-se, então, o benefício da dúvida à ministra, embora a dura realidade sugira descartar a chance de o programa vir a ser sucesso algum dia – no ritmo atual, o PAC precisaria de 16 anos para materializar-se por completo.

Mas há mais. Em julho de 2005, o Instituto Teotônio Vilela pesquisou a atuação de Dilma nos dois anos e meio em que esteve à frente do Ministério de Minas e Energia. Naquela ocasião, ela acabara de assumir a Casa Civil de Lula com a fama de “supergerente” – como se vê, a mitificação já vem de longe.

O levantamento mostrou que o total de outorgas de novas usinas concedidas na gestão Dilma despencou. Caiu de quase 12 mil megawatts (MW) em 2002 para 3.144 MW e 4.142 MW nos dois exercícios seguintes. Os investimentos passaram de R$ 20 bilhões anuais para em torno de R$ 6 bilhões, enquanto a ministra implantava um novo modelo, centralizador e cartorial, no setor elétrico.

A incerteza era tanta que, naquele ano de 2005, não havia um único quilowatt firme assegurado para entrar em operação em 2008 e 2009. Tamanho risco atenuou-se ao longo dos anos seguintes, ao mesmo tempo em que a fartura de chuvas salvou o país da escassez de energia.

Mas isso não impediu que, vivendo plenamente sob as novas regras implantadas por Dilma nas Minas e Energia, o país tivesse em 2008 o pior resultado em termos de expansão do parque gerador de energia desde a reestruturação do setor elétrico, em 1997. Foram agregados apenas 2.158 MW, ou menos da metade dos 4.618 MW anotados em 2002 – ano de melhor desempenho na história. De concreto, é este o currículo que Dilma Rousseff tem para mostrar ao país. Quem quer comprar?