segunda-feira, 13 de julho de 2009

Governo Lula vai deixar um papagaio impagável

Pode ter sido, para os que moram em São Paulo, ecos da comemoração de mais um aniversário da Revolução Constitucionalista de 1932. Pode ter sido, para os que vivem no restante do país, apenas a ocorrência de mais um luminoso fim de semana de inverno. Mas o fato é que nos últimos dias parece ter ocorrido um generalizado despertar acerca do imbróglio com que se defrontará o próximo presidente do país ante o que vem sendo semeado pelo governo Lula nos últimos meses. Fiat lux.

“Verdadeira herança maldita”, “bombas-relógio” são expressões que a oposição já vem empregando para se referir ao completo descontrole que se instalou na gestão da política econômica – em especial na sua vertente fiscal – no atual governo. Mas são também termos que agora começam a disseminar-se entre comentaristas e mesmo no “mercado”, que até aqui vinha preferindo acreditar que tudo corria bem.

Há toda a sorte de cálculos sendo feitos. Nenhum deles é capaz de garantir um mínimo de tranquilidade para quem mira o futuro – e nem estamos a falar do futuro distante, mas de algo que já começa a ocorrer. Vamos aos mais estarrecedores e esclarecedores.

Em estudo que o jornal O Globo publicou em sua edição de ontem, o economista Geraldo Biasoto estima que a miríade de novos gastos já contratados pelo atual governo levará o país a apresentar déficit fiscal já no ano que vem. A reversão é espantosa: de um superávit de R$ 71,4 bilhões em 2008, passaríamos a R$ 2,1 bilhões negativos em 2010. Significa comer 2,5% do PIB com as novas despesas em apenas dois anos.

Entre um ano e outro, ainda segundo o levantamento, as despesas devem crescer singelos R$ 87 bilhões. Faça as contas: são quase R$ 240 milhões extras por dia, sobre uma base que está longe de ser insignificante (para este ano, os gastos são estimados em R$ 498 bilhões). Chegue a suas próprias conclusões. Aqui vai um exemplo do que isso representa: só com o valor adicional que será gasto seria possível construir oito hospitais com mais ou menos 200 leitos em cada um dos 365 dias do ano que vem – hipoteticamente falando, claro.

Procure na lista das ações onde o governo Lula pretende torrar esta montanha de dinheiro e você terá dificuldade de encontrar alguma coisa que rime com tijolo e cimento. Mas é fácil achar o que rime com bolso. Quase tudo vai para aumento de salário de funcionalismo, reajuste do Bolsa-Família, do salário mínimo (cujo valor real, diga-se, já praticamente dobrou nos últimos 15 anos).

Não é mais o caso de avaliar se o governo Lula vai ou não implodir as metas fiscais. Isso já são favas contadas. O que mais atemoriza são as dificuldades para sair desta armadilha nos próximos anos. À guisa de realizar uma política anticíclica, ou seja, de contraponto à crise, a gestão do PT jogou gasolina na fogueira dos gastos correntes – que neste ano sobem 22,6%, enquanto as receitas caem 7%. São despesas que não têm data para acabar, que uma vez iniciadas tornam-se perenes, diferentemente dos investimentos.

Com a amarra do gasto corrente ascendente, ficará simplesmente impossível para o próximo governo fazer investimentos, melhorar a nossa infraestrutura, assegurar a prestação de serviços de saúde e educação de melhor qualidade à população. Restará fazer a gestão da crise e reduzir danos. Política de desenvolvimento como a que necessitamos, esqueça.

Outras análises mostram como se corroem em impressionante velocidade capitais que vão sendo liberados por novas dinâmicas da economia. É o caso, por exemplo, da economia obtida pelo setor público com a recente redução dos juros. Na sexta-feira o Valor Econômico mostrou que a queda de quatro pontos na Selic desde janeiro permitirá poupar quase R$ 40 bilhões em 12 meses com o pagamento de juros. Ganha um doce quem concluir que este dinheiro vai virar fumaça para pagar os aumentos salariais concedidos em 2008 e recentemente confirmados pela gestão Lula.

Enquanto gente como Arminio Fraga considera “assustador” o quadro atual de crescimento continuado das despesas, porta-vozes do governo apelam para fundamentalismos ocos. Na mesma edição de O Globo que mostra os cálculos de Biasoto, Nelson Barbosa, secretário de Política Econômica (sic) do Ministério da Fazenda, afirma: “Na opinião dos mercados, não há risco fiscal no curto prazo”. Ah bom, os mercados... Já na visão de Arno Augustin, secretário do Tesouro, as decisões que veem sendo tomadas são “maduras e tranquilas”.

Barbosa e Augustin só podem estar se fiando numa coisa: daqui a alguns meses ambos estarão fora do governo, vendo de longe a bomba estourar. O petismo acredita que seus altos gastos com a máquina pública serão um trunfo a seu favor na eleição; a oposição tem certeza que a sociedade não vai achar nem um pouco bom pagar o papagaio. É só começar a lhe mostrar o tamanho da conta que ela vai começar a chiar.