segunda-feira, 20 de julho de 2009

Porta fechada para quem não tem emprego

A crise econômica não transformou o Brasil no pior dos mundos possíveis se o tema é desemprego. Felizmente. Mas o mesmo não se pode dizer a quem procura, pela primeira vez, entrar no mercado de trabalho. O número de vagas abertas não consegue atender a demanda por ocupação formal. O quadro também se deteriorou para quem está em busca de voltar a ter sua carteira de trabalho preenchida.

Apesar de uma ou outra comemoração de governistas e do discurso oficial, o período não é propriamente animador. De acordo com o Cadastro Geral de Empregados do Ministério do Trabalho (Caged), foram criados 300 mil postos entre janeiro e junho de 2009. O número, apesar de positivo, é o mais baixo desde 1999, época em que o Brasil enfrentava a crise argentina e a desvalorização do real (e também quando foi iniciada a série estatística). Em comparação com 2008, deixaram de ser criados 1,06 milhão de postos de trabalho.

Os dados mostram que, em junho, a quantidade de admissões foi maior do que a de demissões em 119 mil. Uma projeção otimista daria um saldo de 1,45 milhões de vagas para um período de doze meses. Mas o número é preocupante se levarmos em conta a demanda por emprego formal e qualificado a cada ano: cerca de 1,67 milhão, segundo estudo do Ipea denominado "Demanda e perfil dos trabalhadores formais do Brasil em 2007". Ou seja, cada vez que o país cria menos de 140 mil empregos formais por mês, a perspectiva daqueles que não estão incluídos no mercado se fecha dramaticamente.

Nesse estado de coisas, os que conseguem entrar ou retornar ao mercado ainda são obrigados a se contentar com salários inferiores em comparação com os que foram recentemente demitidos. Segundo o próprio Ministério do Trabalho, a média salarial das contratações este ano foi de R$ 754,79. Quem saiu ganhava, em média, R$ 858,58. A queda foi de 12%.

A situação se agrava quando se sabe do alto percentual de desocupação e informalidade entre jovens, exatamente as pessoas que buscam seu primeiro emprego. No levantamento mais recente sobre o assunto, o relatório "Trabalho Decente e Juventude no Brasil", da Organização Internacional do Trabalho (OIT), divulgado em 1º de julho, 67,5%, dos jovens entre 15 e 24 anos estavam desempregados ou na informalidade em 2006. Com a crise, os índices certamente ficaram bem piores.

Quando se expande a amostra para todo o contingente de trabalho brasileiro, afigura-se um quadro grave. De acordo com o estudo do Ipea, em 2007 a demanda total, em estoque, por emprego no Brasil, incluindo a mão de obra sem qualificação e experiência profissional, era de 9,1 milhões de vagas. A quantidade de pessoas sem ocupação exigiria atitudes drásticas.

Frente a isso, entretanto, o governo continua com dificuldades crônicas para melhorar as ações de investimentos públicos que podem gerar empregos. Os entraves do tão propagado Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) são evidentes. De acordo com o Siafi, dos R$ 20,9 bilhões previstos no Orçamento da União para 2009, até o fim de junho só R$ 9 bilhões foram reservados. Destes, apenas R$ 807 mil foram liberados, ou seja, 3,9% do previsto.

A saída do governo para enfrentar tais dificuldades estruturais e conjunturais tem sido tangenciar o problema, aumentando o contingente de brasileiros abrigados sob programas sociais ou inchando a máquina pública. Na filosofia dos governantes, prefere-se que o Estado garanta o sustento de milhões de famílias, do que possibilitar a emancipação autônoma dos brasileiros por meio de empregos dignos.