segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Energia cada vez mais cara e poluente

O ingresso da senadora Marina Silva na corrida presidencial pelo Partido Verde é visto como uma chance de aumentar a discussão sobre o “desenvolvimento sustentável” brasileiro. É ótimo que seja assim. Um dos pontos centrais desta agenda deve ser a geração de energia, algo no que, definitivamente, o país andou para trás nos anos recentes.

No início de 2008 estávamos à beira de um apagão. Quatro anos após a adoção do novo modelo energético, gestado pela ministra Dilma Rousseff quando ocupava a pasta de Minas e Energia, a escassez de energia era evidente. Apenas um indicador: no verão daquele ano, com os reservatórios de água em níveis críticos, o preço do insumo negociado no mercado livre ultrapassou R$ 500 por megawatt.

Consequência direta da planificação e da centralização excessivas do modelo Dilma, como já se discutiu aqui, os investimentos no aumento da geração de energia despencaram. 2008 ficou marcado como o ano em que a expansão do nosso parque gerador foi a menor desde 1997: apenas 2.158 MW novos foram agregados.

O farto regime de chuvas que ocorreu desde então e, principalmente, a crise econômica, que deprimiu a demanda, fizeram com que a energia passasse de escassa a abundante. Efeito disso é que o mesmo megawatt custa hoje menos de R$ 50 no mercado livre. (Este ainda não é o preço de equilíbrio: a média histórica gira em torno de R$ 130.) Reina a calmaria.

Momentos assim, em que não há pressão pela expansão imediata e premente da geração de energia, precisam ser aproveitados para traçar políticas de longo prazo deste que é um setor fundamental da vida de um país. Mas, a julgar pelo planejamento existente hoje, a perspectiva é desoladora.

O governo Lula incentivou a geração de energia a partir da termeletricidade. Pior ainda, deu proeminência às usinas a óleo combustível. O resultado é que, no horizonte de uma década, o país deverá multiplicar por seis a participação desta fonte na sua matriz energética. Trata-se da opção mais cara e poluente de que dispomos. Isso num país em que a oferta de fontes limpas renováveis é amplíssima.

Mais de 70% da energia arrematada nos leilões de energia nos últimos anos provém de fonte fóssil, e não necessariamente da fóssil mais limpa (o gás natural), mas óleo e carvão mineral. O resultado do ponto de vista ambiental é catastrófico.

O Plano Decenal de Energia Elétrica prevê que a geração de energia elétrica a óleo combustível passará do 0,9% atual para 5,7% do total em 2017. Isso irá representar maior emissão de gases causadores de efeito-estufa: estima-se que a quantidade lançada na atmosfera pelo país subirá de 14,4 milhões de toneladas em 2008 para 39,3 milhões de toneladas em 2017. Mas o valor previsto ainda pode quase dobrar em razão de atrasos nos cronogramas das usinas.

Serão instaladas 81 novas usinas térmicas em território nacional nos próximos dez anos; hoje há 77. Em capacidade de geração, significa pôr uma Itaipu de poluição em operação, com capacidade de geração de quase 14 mil MW. (Uma discussão mais detalhada sobre o assunto pode ser lida nesta análise feita pelo Instituto Teotônio Vilela.)

Além de mais poluição, mais térmicas na base geradora representam custos maiores para os consumidores. Só em 2008, quando tiveram de ser freneticamente acionadas como precaução ao apagão, as usinas movidas a óleo, gás, carvão ou outro tipo de fonte de calor custaram R$ 1,7 bilhão a mais ao sistema. É isso o que refletem os aumentos recentes nas faturas que estão chegando aos consumidores.

“O modelo, além de vir lutando para garantir a segurança energética a qualquer custo econômico e ambiental, não tem conseguido garantir a modicidade tarifária”, escreveu Osvaldo Soliano Pereira, presidente da Sociedade Brasileira de Planejamento Energético, em artigo publicado pelo Valor Econômico há alguns dias. Com ou sem Marina na disputa, o país já tem muito com o que se preocupar na área energética.