segunda-feira, 24 de agosto de 2009

A oposição não teme a cara feia do governo

O aumento deslavado de gastos tem sido tema recorrente da oposição nos últimos meses. Parece até ladainha, mas é sinal da preocupação de quem teme pelo futuro do país e gostaria que o momento de crise e oportunidades estivesse sendo usado para construir algo melhor para os brasileiros.

Mas o governo federal não gosta de ouvir críticas e acha que as observações feitas pela oposição são apenas chororô de quem não está se lambuzando com a gastança. O petismo não aceita contestações. E, para contrapô-las, lança mão das armas que maneja com mais habilidade: mentiras e sofismas.

Lula e os seus dizem que estão louquinhos para discutir aumento de gastos com a oposição. Segundo o argumento oficial, tal escalada se justifica plenamente pelo seu viés “social”. Mas o discurso lulista não resiste a uma brisa de inverno.

Nos anos recentes, a maior parte do aumento de despesa com pessoal foi direcionada a áreas muito distantes daquelas que poderiam resultar em mais bem-estar para a população, como educação e saúde. Desde 2006, os gastos com pagamento de servidores subiram R$ 9 bilhões. Educação comeu 18% deste bolo; saúde, 10%; previdência e assistência, 3%. Onde, diabos, foi parar o dinheiro, então?

Estudo preparado pela assessoria do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) na Comissão de Acompanhamento da Crise do Senado responde à questão. Mostra que quem abocanhou a parte mais vistosa dos aumentos foram servidores de setores como Presidência da República, ministérios da Fazenda e Turismo, Ministério Público Federal, poderes Legislativo e Judiciário, entre outros. Simplesmente metade do aumento foi para este pessoal.

Não surpreende que tamanhos gastos adicionais não venham se traduzindo na prestação de melhores serviços de saúde, educação ou assistência social à população.

“A evolução e a composição recente do gasto salarial predominante da União (com remuneração dos servidores em atividade) não privilegiou e nem concentra recursos nos setores sociais básicos, muito menos em infraestrutura, tendo setores tipicamente burocráticos sido os que mais ocuparam espaço na folha salarial”, escrevem José Roberto Afonso e Kleber Castro no estudo.

Gastos com pessoal são apenas parte de um universo maior, as chamadas despesas não financeiras. Um segundo estudo da assessoria de Jereissati – alçado à manchete de O Estado de S.Paulo em sua edição desta segunda-feira – torna ainda mais evidente a irracionalidade da escalada de despesas determinadas pelo governo do PT nos últimos tempos.

Entre os sete primeiros meses de 2008 e o mesmo período deste ano, tais gastos subiram 14%, o que, trocando em miúdos, equivale a R$ 39,5 bilhões adicionais. Em apenas um ano, as despesas não financeiras da União aumentaram 2,44 pontos percentuais do PIB e alcançaram a R$ 315 bilhões entre janeiro e julho últimos. Proporcionalmente, o aumento entre 2008 e 2009 foi maior que todo o crescimento registrado nos cinco anos anteriores, quando a expansão fora de 2,05 pontos do PIB.

Isso torna evidente que o governo petista ligou a máquina de fazer chover dinheiro. O problema é que a geringonça está molhando a horta errada.

No estudo, os economistas José Roberto Afonso e Samuel Pessôa demonstram que as despesas com investimentos – as mais indicadas para contrapor-se a períodos de crise como o atual – são o item que menos contribuiu para o aumento dos gastos. Dos quase R$ 40 bilhões torrados a mais de janeiro a julho, apenas R$ 2,2 bilhões tiveram este destino. Enquanto os gastos como um todo representam 18,34% do PIB, os investimentos respondem por mero 0,92%.

A oposição não tem medo da cara feia do governo, que acha que pode ganhar o debate – qualquer debate – no grito: a sofismas, contrapõe fatos. Já as mentiras caem por si próprias; Dilma Rousseff está aí para comprovar.