quarta-feira, 5 de agosto de 2009

País depende cada vez mais das commodities

Reina um clima generalizado de euforia na economia. E não é apenas no Brasil. Em diferentes cantos do planeta, a sensação é de que o pior da crise teria ficado para trás. Todos torcemos para que tais profecias se autorealizem. Mas a questão que surge é: se tais prognósticos se mostrarem verdadeiros, com que feição o país emergirá da recessão?

Da adversidade é que surgem as grandes oportunidades, ensinam os cânones da administração. Sob este aspecto, o período de intensa turbulência que atravessamos desde setembro de 2008 não parece ter rendido boas lições. Sairemos da crise com perspectivas fiscais críticas, um Estado agigantado, um mercado de trabalho deteriorado.

Mas o pior talvez sejam os efeitos sobre o nosso parque produtivo. Há quem aposte que emergiremos na nova configuração mundial como especialistas em fornecer produtos básicos ao mundo. “Dentro dos Brics, corremos o risco de a China ficar com a indústria; a Índia, com os serviços; a Rússia, com o petróleo; e o Brasil, com os alimentos”, escreveu José Pastore na edição de O Estado de S.Paulo de ontem.

Embora Pastore ressalve que há certo “exagero” na sua “simplificação”, o comportamento recente do nosso comércio exterior corrobora o receio de nos transformarmos em um país especializado em produzir commodities, itens com menor valor agregado. No primeiro semestre do ano, quase 43% das exportações brasileiras foram de produtos básicos. A trajetória é fortemente ascendente: há um ano, tais itens tinham peso de 36% na balança comercial.

No mês passado, o superávit comercial caiu bastante, tanto em relação a junho quanto na comparação com julho de 2008. As quedas foram de 36% e 12%, respectivamente. Nas mesmas bases de comparação, o saldo comercial ficou 42% e 12% menor.

Uma das principais explicações repousa, justamente, na crescente dependência das vendas de commodities ao exterior: em julho arrefeceram as compras de soja e minério de ferro feitas pela China. Sem o empuxo chinês, que hoje já absorve 15% das nossas exportações, a balança brasileira desabou.

Este é o risco que corremos: ficar cada vez mais pendurados na brocha de um grande comprador (a China) e circunscritos a uma pauta exportadora limitada e empobrecida. Com o mergulho do dólar – cuja cotação já retornou a níveis pré-crise – tal tendência é quase uma certeza: com alta de 22%, o real é a moeda que mais se valorizou no mundo neste ano.

O câmbio cada vez mais valorizado resulta em perda de rentabilidade das exportações. Até junho, antes, portanto, do novo mergulho do dólar, a queda acumulada no ano já era de 18,4%. Diante disso, é certo que muitas empresas serão forçadas a abandonar o mercado externo, comprometendo ainda mais a geração de emprego e renda no país.

A superdependência da nossa pauta comercial em relação às commodities fica ainda mais evidente quando se analisa o comportamento das exportações de itens com maior conteúdo tecnológico, como fez o Iedi em estudo divulgado nesta terça-feira. Enquanto a balança comercial como um todo apresentou superávit de US$ 14 bilhões no primeiro semestre, a indústria de transformação teve déficit de US$ 2,1 bilhões.

Nos segmentos de maior conteúdo tecnológico, o rombo foi ainda maior. Os produtos considerados de alta tecnologia tiveram déficit de US$ 7,6 bilhões entre janeiro e junho. Os de média-alta tecnologia saíram-se ainda pior: as importações superaram as exportações brasileiras em US$ 11,2 bilhões no período.

Traduzamos estes números para uma realidade mais palpável: estes segmentos industriais com maiores dificuldades de exportação são justamente os que formam trabalhadores mais qualificados, usam tecnologias mais complexas, pagam salários mais altos e geram mais efeitos sobre o restante da cadeia produtiva. Uma vez debilitados, que futuro nos espera?

A recuperação global virá, se não agora, logo mais adiante. O melhor a fazer seria deixar o país pronto para capturar as boas oportunidades que surgirão; o dinamismo externo ajudaria a impulsionar a arrancada interna. Mas o retrato do momento ainda não indica que estejamos prontos para o bote. O país está mais para presa.