segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Entre mortos e feridos, nem todos se salvaram

O Brasil saiu da recessão. Entrou para o grupo onde já estavam nações como Estados Unidos, Japão, França e Alemanha: cerca de 45% do PIB mundial se expandiu no segundo trimestre do ano. É bom que tenhamos nos recuperado, conforme os números divulgados na sexta-feira pelo IBGE. Mas é igualmente importante ter claro o estrago que os dois trimestres seguidos de queda deixaram na nossa economia, a fim de que a retomada do crescimento possa ser mais bem sucedida.

Ainda há perdas evidentes e expressivas no emprego. Os investimentos produtivos tiveram o pior resultado em 13 anos. O comportamento do comércio exterior continua bem inferior ao de um ano atrás. Resta claro que os seis meses de recessão foram muito piores do que uma “marolinha”, como gostaria o presidente Lula: a crise econômica custou ao país o pior semestre desde 1992.

No semestre, os investimentos caíram 15,6%; as exportações, 13,1%; a indústria, 8,6%. “Tais quedas não tiveram paralelo nas recessões de 1998, quando a moratória russa provocou um ataque especulativo ao real; de 2001, quando o colapso da Argentina coincidia com os atentados terroristas de 11 de Setembro; e de 2003, na ressaca das turbulências após a eleição de Lula”, compara a Folha de S.Paulo.

O saldo de empregos eliminados ao longo da crise ainda é altíssimo: são 196.458 postos a menos do que em setembro de 2008, segundo o Caged. Para estas pessoas o pior da crise ainda não passou. Setorialmente, os resultados são ainda mais dramáticos: na indústria, ainda há 472 mil demissões a mais do que admissões; na agropecuária, são 65 mil no mesmo período. O saldo só não é pior porque comércio e serviço tiveram excelente desempenho, com geração de 333 mil postos na crise.

A maior decepção entre os dados divulgados pelo IBGE na semana passada foram os investimentos, comprovando que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) tem muito de marketing e quase nada de cimento. No segundo trimestre, a formação bruta de capital fixo (o palavrão com que economistas gostam de chamar o investimento em máquinas, construção e equipamentos) caiu 17%.

A taxa de investimento despencou a 15,7% do PIB. (Nunca é demais lembrar: a promessa do PAC era elevar este percentual da casa dos 18%, onde estava, para 25%.) Traduzindo isso para o mundo real: R$ 146 bilhões em investimentos previstos para este ano não viram a luz do dia, frustraram-se, segundo mostrou o Valor Econômico. Uma conseqüência direta disso é que, logo logo, o país pode ver-se diante de novos gargalos, principalmente na logística.

Ao longo da recessão, a indústria foi a mais penalizada pela crise. Um dos aspectos em que o setor secundário saiu-se pior foi no comércio exterior. Levantamento da Apex-Brasil mostra que as exportações industriais, de maior valor agregado, tiveram queda de 35,5% ao longo da crise. Isso significa perda de quase US$ 42 bilhões em comparação ao que teria sido embarcado caso a economia tivesse se mantido na normalidade.

Como um todo, o país exportou US$ 24 bilhões menos no acumulado ao longo dos últimos 12 meses, quando se comparam os resultados até agosto de 2009 com os de um ano antes. O superávit comercial caiu menos: US$ 1,4 bilhão.

Diante de tudo isso, o melhor que o governo Lula poderia fazer neste momento é reconhecer os estragos que a “marolinha” causou à nossa economia. Mas tudo indica que o presidente não agirá assim, culpando empresários e louvando o “povo pobre deste país”.

Tais mistificações não ajudam o país a soerguer-se, mas têm um fim claro: gerar celeumas a fim de incendiar o debate eleitoral. Quem ganha com isso? Fato é que, não fosse a prudência das empresas durante a tempestade, talvez ainda estivéssemos patinando na recessão. Ainda há um longo caminho de recuperação a percorrer.