quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Maus negócios à velocidade de caças a jato

A compra de equipamentos militares junto à França escancara, mais uma vez, a maneira rasteira com que Lula trata temas de interesse nacional. O presidente os “decide” como se fossem escolhas de fim de semana tomadas numa mesa de bar. Ignora que sejam algo que gerará consequências ao longo de anos na vida do país. É assim com os caças, submarinos e helicópteros militares; tem sido assim com o pré-sal. Resta claro o descompromisso com o futuro e a estreiteza da visão presidencial, restrita ao horizonte imediato.

Um comentário de Lula sobre a transação com os franceses, anunciada no dia das comemorações pela independência brasileira, resume seu modo de encarar os assuntos de Estado: “Eu nem sequer tive tempo de fazer reunião com o ministro da Defesa para discutir com profundidade”. Foi pior: o presidente nem sequer deu-se ao trabalho de saber o que os militares que irão usar os jatos consideram sobre a compra.

O documento em que, segundo a Folha de S.Paulo, os militares elencariam virtudes e problemas de cada projeto em disputa continua na gaveta. Encerrou-se com tacão uma disputa de intrincados aspectos técnicos, geopolíticos e estratégicos que se arrasta há mais de uma década. O atropelo ficou tão evidente que, ontem, o governo tentou remendar o malfeito e disse que ainda irá gastar mais alguns dias até decidir a questão. Jogo de cena; a opção francesa está dada.

A transação com os franceses envolve algo como R$ 35 bilhões. Apenas para comparar, daria para colocar em operação o tão sonhado quanto improvável trem-bala ligando o Rio de Janeiro a São Paulo. (Claro está que não dá para prescindir da defesa militar em função de outras prioridades, como as de transportes.) Na escolha dos 36 caças que equiparão nossa Força Aérea, Lula optou pela opção mais cara: cada Rafale francês deverá custar US$ 140 milhões. É o dobro do sueco Gripen e 40% mais que o americano F-18, ainda de acordo com a Folha de S.Paulo.

Uma das justificativas oficiais da preferência pelos franceses é que, em troca, o Brasil será brindado com a compra, pelos franceses, de uma dezena de unidades de uma aeronave militar a ser fabricada pela Embraer, cada uma custando cerca de US$ 80 milhões, informou O Estado de S.Paulo ontem. Ou seja, compramos 15 vezes mais do que poderemos vir a vender. Trocamos esmeraldas por promessas de espelhinhos, conforme destrincha em minúcia o Valor Econômico na sua edição de hoje.

Há mais aspectos condenáveis no negócio bilionário. Um deles é a escolha sem licitação (mais uma!) da Odebrecht para construir uma base naval e um estaleiro, junto com os franceses, pela bagatela de R$ 5 bilhões.

No caso dos caças, Lula atrela o futuro militar brasileiro a um único fornecedor, submetendo-o aos humores do governo e da economia de um único país. Mais: anexa-o a uma fabricante (a Dessault Aviation) que, sem a operação brasileira, corre risco de fechar as portas, conforme admitem os próprios franceses. A imprensa de lá informa, ainda, que os aviões que o Brasil deverá importar serão vendidos “nus”, o que deve obrigar o país a comprar também da França os armamentos que vão equipar as aeronaves. Por tudo isso, a decisão de Lula não é, de forma alguma, condizente com o interesse nacional.

Decidir de chofre os vencedores de disputas que deveriam mirar a eficiência e os resultados que melhor atendam o interesse do país não é prática nova no governo do PT. Foi assim, por exemplo, na escolha do padrão da TV digital, que, contra todas as recomendações, recaiu sobre o modelo japonês, de uso tão limitado quanto as dimensões daquele arquipélago.

A lista vai mais longe. Inclui a formação da “supertele” nacional unindo a Brasil Telecom à Oi, com farto financiamento do BNDES (passados já alguns meses, alguém é capaz de apontar algum benefício da operação para o consumidor?). Passa pela discussão, em andamento, para a formação de um gigantesco grupo petroquímico juntando a Braskem à Quattor, com participação relevante da Petrobras. E abarca as reiteradas ameaças de Lula, contrariado pelas decisões empresariais da companhia, de interferir na Vale.

Um aspecto deveria ficar claro para o presidente da República e os petistas que o cercam: interesse nacional não se confunde com interesse estatal. Em boa parte das decisões estratégicas recentes, o governismo alega sempre a defesa da nação, mas o que persegue são ganhos politiqueiros, benefícios corporativistas e dividendos eleitorais. Por tudo isto, resta claro que se há quem não tem defendido o interesse nacional é o governo petista. Nicolas Sarkozy está rindo à toa, e desta vez não é por causa da Carla Bruni.