segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Segure sua carteira: inflação e juros vão subir

A conta dos gastos altistas do governo Lula começou a aparecer. Na sexta-feira, o Banco Central admitiu, em seu relatório trimestral, que a gastança federal deverá resultar em inflação mais alta no ano que vem. O outro lado da moeda dos preços em elevação é o aumento de juros. De um lado ou do outro, o cidadão perde.

Nos seus textos, comumente escritos em hebraico arcaico, o BC sempre se esquivou de criticar o aumento dos gastos do governo federal. Preferia escamoteá-los. Neste trimestre, porém, foi diferente, e a gastança foi posta na equação que define os cenários com os quais o BC trabalha. Resultado: a inflação deve ser pelo menos 0,5 ponto percentual maior em 2010 – previsão que, nesta segunda-feira, o consenso do mercado, expresso no boletim Focus, já incorporou. Passará de 3,9% para 4,4%.

Do lado dos juros só há divergência quanto ao momento em que eles voltarão a subir. Há certeza absoluta de que eles aumentarão. Quanto à magnitude, estima-se elevação de cerca de três pontos percentuais no ano que vem. O país voltaria a taxas nominais em torno de 11% ao ano, o que equivaleria a juros reais de cerca de 6,5% (hoje, tais índices são de 8,75% e 5%, respectivamente). As taxas no mercado futuro já começaram a subir.

A explicação para tudo isso é que o forte impulso dos gastos públicos se somará à recuperação econômica, ao mesmo tempo em que o parque produtivo pode não reagir em ritmo à altura. A isso se chama, em economês, “excesso de demanda”. E se a oferta de bens e serviços é insuficiente, os preços sobem, levando junto a inflação. Para que esta não alcance a estratosfera, os juros aumentam, a fim de frear o consumo. E tudo volta a esfriar, prega a teoria.

Conseqüência disto tudo é que o gasto público expansionista acaba por retirar espaço para que o aumento do investimento produtivo privado avance. Perde o país. Aumentar os investimentos teria sido a melhor profilaxia contra a recessão, mas o governo Lula não fez nada disso: optou por inchar os gastos com a máquina, com o funcionalismo, com salários de servidores.

José Roberto Afonso mostra, em artigo publicado na edição de sábado de O Estado de S.Paulo, que, do aumento de gastos registrado neste ano até agora, os investimentos receberam mais 0,13% do PIB, mas a folha de servidores abocanhou 0,69% - ou seja, cinco vezes mais. Custeio levou mais 0,58% do PIB.

A consultoria MB Associados, cujos prognósticos econômicos têm incomum aderência ao que de fato ocorre no mundo real, estima que os gastos federais representarão metade do aumento da renda previsto para este ano: são R$ 28,5 bilhões num total de R$ 56,2 bilhões, segundo manchete do Valor Econômico de hoje.

Parece bom? Depende do bolso para onde esta dinheirama vai. Segundo a consultoria, 63% da expansão patrocinada pelo governo será destinada a aumentar salários do funcionalismo público. Já para o salário mínimo vai bem menos: 37% do total. No ano que vem, as proporções não serão muito diferentes.

“Se foi mesmo o gasto público que salvou o capitalismo, evidências desmistificam a ideia de que isso foi feito privilegiando os mais pobres (estes ganharam menos que os servidores ativos, a elite dos assalariados e concentrados em poucas e mais ricas unidades da federação) ou seguindo lições teóricas keynesianas ou mesmo os outros emergentes (que aproveitaram para investir pesado em infraestrutura)”, escreve Afonso.

São, portanto, evidências que desmontam o discurso oficial de que o gasto elevado beneficiou os mais pobres, seja diretamente, via salário mínimo e bolsas assistenciais, seja por meio de melhores serviços prestados em hospitais, escolas, postos de saúde públicos. Até agora tudo não passa de herança maldita, que já começa a apresentar sua fatura.