quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Titia Moody’s dá nota alta para o Brasil... e também para Madoff

O Brasil ganhou ontem mais um selo de reconhecimento dado pelas agências de rating. São as mesmas instituições de classificação de risco que, pouco mais de um ano atrás, laureavam com medalhas de honra ao mérito papéis podres que implodiram o sistema financeiro mundial e tratavam como alunos brilhantes picaretas como Bernard Madoff. Portanto, não se deve comprar pelo valor de face o que elas vendem.

Mesmo assim, o comunicado da agência não deixou de ressaltar aspectos que o governo Lula preferiria ver esquecidos nesta hora. “A Moody’s e as demais agências continuam assinalando que a situação fiscal do país – a arrecadação e os gastos do governo federal – preocupa”, ressalta a Folha de S.Paulo. O discurso oficial, vocalizado por Henrique Meirelles e Guido Mantega, porém, exalou felicidade e otimismo, ambos imprudentes.

“Em matéria de administração dos seus gastos, a nota do governo Luiz Inácio Lula da Silva não é boa. Esse ponto diz respeito ao planejamento da nação para o futuro e segue sendo um problema que deve atrapalhar o seu progresso”, diz o professor Aldo Musacchio, da Harvard Business School, também segundo a Folha. Em uma frase, é isso: sobreviver à tempestade é uma coisa; progredir é outra.

E é justamente o avanço estrutural da economia do país que está novamente em jogo. Com a nova elevação de rating, os especialistas já preveem que a moeda brasileira sofrerá valorizações adicionais, pois os investidores internacionais devem trazer mais recursos para cá. Ontem, antes mesmo do anúncio da Moody’s, o dólar já caira ao menor patamar em 12 meses, acumulando desvalorização de 22,96% no ano.

Não se avista o fundo do poço, embora alguns modelos econométricos tentem estimá-lo. Segundo a consultoria Wagner Investimentos, citada por Luis Sérgio Guimarães no Valor Econômico, “o dólar tem condições de cair para o patamar entre R$ 1,70 e R$ 1,75 por causa da alta taxa de juros e da elevada proporção das commodities na pauta de exportação”.

Dólar barato parece bom? Não é. Isso deve fazer com que nossas exportações se deprimam ainda mais ou, para ser mais exato, que se concentrem ainda mais em produtos básicos. Depois de 31 anos, a pauta brasileira voltou a ser predominantemente concentrada em commodities, conforme mostrou O Estado de S.Paulo em sua edição de sexta-feira.

Por commodities entenda-se produtos que, na maior parte dos casos, não passam por processamento industrial, são vendidos tal como são extraídos. Exemplos: soja em grão, petróleo em bruto, minério de ferro, carne in natura. Isso compõe, por exemplo, quase 85% do que o Brasil exporta para a China, nosso maior comprador hoje. Coloquemos as coisas em termos de valores: um quilo de notebooks equivale ao preço de quatro toneladas de carne. É esta a troca que o país está fazendo, ao conviver placidamente com o dólar barato.

O corolário disso tudo é que o país fica pendurado na brocha de poucas economias, como a chinesa, e sujeito ao humor das oscilações das cotações das commodities. Trata-se de algo que, para muitos, não se sustenta: estamos diante de um segmento cujos preços internacionais estão hoje em estado de histeria e que, para piorar, gera poucos empregos.

E isso não é histrionice da oposição. Luciano Coutinho, presidente do BNDES, diz com todas as letras a Cristiano Romero, no Valor Econômico, a respeito da trajetória crescente de valorização do dólar: “Isso tornará muito difícil o avanço em áreas de manufatura e de serviços de alta intensidade tecnológica que já enfrentam no cenário global acirrada competição”. Lula já mostrou que gosta de jogos de azar e, mais uma vez, está fazendo a sua aposta – com o meu, com o seu, com o nosso real.