segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Um governo em cima dos palanques

Terminou sábado o prazo para filiações e mudanças de partido com vistas às eleições de outubro de 2010. O quadro que emerge é de um governo instalado em cima de palanques. Nunca antes na história se viu tantos ministros e funcionários de primeiro escalão a postos para concorrer a um mandato eletivo.

É inédito, por exemplo, termos, simultaneamente, o presidente do Banco Central e o chanceler recém-filiados a partidos em busca de “palanquezinhos”, no dizer de Celso Amorim. Henrique Meirelles filiou-se ao PMDB e lançou sombras sobre sua atuação na condução da política monetária: é compatível manejar os juros – ainda mais num momento em que se projeta alta da inflação – e almejar um mandato a presidente, vice-presidente, senador ou seja lá o que for?

A entrada de Amorim no PT também não se mostra compatível com a condução de uma política externa equilibrada, algo que o episódio ainda mal resolvido de Honduras ilustra. Talvez se explique agora a adoração do ministro das Relações Exteriores por Lula, a quem anos atrás alcunhou “Nosso Guia”.

Dos 37 ministros do governo Lula, só seis não têm vínculos partidários. Dos 31 que estão filiados, pelo menos 18 devem concorrer a algum cargo nas eleições de 2010. A se confirmar esta previsão, eles debandarão do governo em abril do ano que vem, deixando a administração Lula às moscas em seus meses derradeiros.

Estar ligado a um partido não é, obviamente, um problema em si para os detentores de cargos em quaisquer administrações públicas. O problema surge quando o interesse eleitoral tende a conflitar com as necessárias decisões a serem tomadas no exercício do cargo. Para ficar no exemplo de Meirelles, elevar juros na véspera das eleições pode ser imperativo, mas não combina com o figurino de quem vai pedir votos. Como ele se comportará?

O PT controla hoje 17 ministérios, segundo levantamento publicado por O Globo na quinta-feira passada. Destes, pelo menos nove serão candidatos. Caso emblemático da subordinação da agenda administrativa à agenda política é o do ministro Tarso Genro. Candidato a governador do Rio Grande do Sul, ele dedica boa parte do seu tempo a fazer política em seu estado natal.

Em setembro, sobre as andanças de Genro o “Painel” da Folha de S.Paulo publicou: “Do final de abril ao final de agosto, o ministro da Justiça passou um de cada quatro dias de trabalho no Rio Grande do Sul. Nesses quatro meses, foram 89 dias com agenda oficial, sendo 23 deles em municípios gaúchos. Quando se compara apenas com as viagens nacionais, a proporção aumenta: 38 dias fora de Brasília, 60% deles, portanto, em solo gaúcho”.

Além do PT, o PMDB tem cinco ministros-candidatos. PCdoB, PR, PDT e PSB têm um candidato cada. Diante desta realidade, talvez não espante a postura assumida por Lula uma semana atrás quando deu posse a Alexandre Padilha no Ministério das Relações Institucionais. Ele defendeu o loteamento dos cargos públicos entre partidos aliados como forma de obter votos no Congresso. É o retrato acabado do aparelhamento sem precedentes que a gestão petista promoveu na administração federal.