segunda-feira, 23 de novembro de 2009

As más companhias da diplomacia de Lula

Desembarca hoje no Brasil o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad. Sua figura franzina pode até enganar quem mira suas fotos estampadas nas edições de hoje de todos os grandes jornais do país, mas o tapete vermelho que o governo brasileiro lhe estenderá na base aérea de Brasília significará as boas-vindas do país a um facínora de marca maior.

Ahmadinejad comanda o teocrático governo iraniano com mãos de ferro. Em junho foi reeleito com cerca de 62% dos votos dos iranianos, mais ou menos o dobro de seu opositor. O que, à primeira vista, pode parecer uma votação consagradora dos iranianos satisfeitos com o governo foi uma rotunda fraude, condenada em quase todo o mundo. A política no Irã ainda se desenrola nos tempos da pré-história, mas o governo brasileiro, sob Lula, não está nem aí.

Nosso tapete vermelho não será estendido apenas para um governante fraudulento. Será desenrolado, sobretudo, para um regime truculento e belicista. Não bastasse ter conquistado novo mandato com um gol de mão, depois da vitória Ahmadinejad desceu o porrete nos seus adversários. Seus opositores, que foram para as ruas protestar, são hoje perseguidos e brutalizados por bandos violentos pró-regime.

“Presos, torturados, sexualmente violentados nas prisões, os opositores são condenados, alguns à morte, em julgamentos monstros que lembram os processos estalinistas de Moscou”, escreve José Serra, governador de São Paulo, em artigo publicado na edição de hoje da Folha de S.Paulo. É que no Irã de Ahmadinejad age uma famigerada Guarda Revolucionária, decalque da SS nazista, relata Denis Lerrer Rosenfield em O Estado de S.Paulo.

O Irã de Ahmadinejad tem muito mais a ser condenado. Lá homossexuais são selvagemente perseguidos; consideradas seres inferiores, as mulheres viram seus direitos retroceder; o Hamas e o Hezbollah obtêm apoio financeiro e em armas para perpetuar a violência no Oriente Médio. Para Ahmadinejad, o Holocausto e seus 6 milhões de mortos pelos nazistas nunca existiram.

Nada disso importa para o governo brasileiro, que diz ver nas mesuras ao Irã, nos acenos à Autoridade Palestina e a Israel, uma forma de imiscuir-se para o bem nas questões do Oriente Médio. Me engana que eu gosto. Especificamente no caso de Ahmadinejad, também diz querer abocanhar mais mercado no Irã, país para o qual nossas exportações somam magistrais US$ 1,13 bilhão – 0,6% do total em 2008 ou, ainda, o equivalente a menos de 6% das vendas totais de uma de nossas exportadoras, a Petrobras.

O Brasil tem histórico pacifista e de ligações com governos que rezam pela mesma cartilha de não-agressão. Mas o lulismo, em seu “nunca antes neste país”, optou por outra trilha: a da reiterada reverência a regimes ditatoriais ou, na melhor das hipóteses, a de omissões igualmente ignominiosas a violações de direitos humanos no mundo. A lista (ou folha corrida) é longa.

A mais duradoura das nossas vergonhas diplomáticas continua a ser a não-condenação à ditadura que em Cuba sobrevive até mesmo à decrepitude de Fidel Castro. Ditadura que, como mostrou O Estado de S.Paulo neste domingo, não apenas tem redobrado sua violência, como, mergulhada numa perene crise econômica, sequer consegue assegurar conquistas sociais, como os outrora avançados sistemas de saúde e educação.

Há mais. Há, por exemplo, a abstenção brasileira em relação ao genocídio perpetrado pelo governo do Sudão e sua política de violação aos direitos humanos. Na região oeste daquele país africano, tribos negras não-muçulmanas têm sido massacradas por um governo islâmico radical. Assassinatos em massa já deixaram mais de 200 mil mortos e outros tantos mutilados. Nada, porém, suficiente para que o governo brasileiro, como fizeram boa parte das democracias ao redor do mundo, condenasse o regime sanguinário.

Hugo Chávez e seu governo bufão nem vale a pena citar.

A estes governos deploráveis e ao Irã de Ahmadinejad, com sua recusa a se comprometer com um programa nuclear de fins estritamente pacíficos, o governo Lula estende tapete vermelho. Nunca antes na história estivemos tão mal acompanhados.