quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O apagão nosso de cada dia

“Temos outra certeza: não vai ter apagão. É que nós voltamos a fazer planejamento.” A frase, dita há menos de um mês com farta dose tanto de desconhecimento quanto de má-fé, perseguirá sua autora, Dilma Rousseff, pelas próximas semanas e meses. É a negação da realidade: não apenas pelo apagão monstro de 10/11, a ministra-chefe da Casa Civil vem sendo desmentida cotidianamente pelos fatos, para desconforto dos brasileiros.

Ontem, mais um longo apagão atingiu uma grande cidade do país. Boa parte da zona sul do Rio ficou quase 24 horas sem energia, com prejuízos mais uma vez evidenciados nos instantâneos que os jornais publicam hoje: lojas fechadas, casas às escuras, vias públicas em estado de abandono. Parafraseando Dilma, temos outra certeza: vamos ter uma temporada de apagões pela frente. É que continuamos a viver apenas de marketing.

O número de quedas de energia significativas (com mais de uma hora de duração) já cresceu muito este ano: com as mais recentes, beira 70, ou quase 50% mais do que em 2008. Em sua edição desta quarta-feira, a Folha de S.Paulo mostra que “cerca de 60% dos brasileiros atendidos pelas 20 maiores concessionárias do país são obrigados a ficar mais tempo sem luz (hoje) em relação a cinco anos atrás”. Em torno de 32 milhões de brasileiros são atendidos por concessionárias que viram seu desempenho piorar nos últimos cinco anos – coincidência ou não, exatamente o mesmo período em que vigora o novo modelo para o setor elétrico implantado por Dilma.

A causa mais evidente dos apagões são os insuficientes investimentos na manutenção da rede elétrica nacional. Uma avaliação recente feita pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), e revelada por O Estado de S.Paulo no sábado, mostra que metade dos equipamentos analisados precisam ser substituídos imediatamente ou num horizonte próximo. “A expansão do sistema elétrico brasileiro tem elevado o número de equipamentos obsoletos nas subestações de transmissão, fato que aumenta o risco de acidentes”, registra o texto.

Ontem O Globo também já exibira o drama das empresas da Zona Franca de Manaus, às voltas com apagões quase diários: “O estado ainda não faz parte do sistema interligado do país e funciona aos trancos e barrancos com uma rede antiquada, praticamente manual. As 500 empresas da Zona Franca reclamam de prejuízos milionários ao setor industrial.”

O jornal cita o ilustrativo caso de uma fabricante de CD e DVD: só neste ano, as interrupções de energia provocaram perdas de 156 horas na linha de produção e jogaram no lixo nada menos que 124.800 CD e 90 mil DVD.

Se a infraestrutura encontra-se em condições deficientes, a expansão do parque gerador também vai se transformando numa incógnita. A frustração da vez envolve o leilão da hidrelétrica de Belo Monte, a gigantesca usina no rio Xingu que concentra as esperanças do governo Lula para fazer frente a uma possível escassez futura. Sem licenciamento ambiental, ela, na melhor das hipóteses, só começará a gerar energia um ano depois do previsto, conforme admitiu ontem o ministro Edison Lobão.

Mas as dificuldades de licenciamento ambiental não se limitam a Belo Monte e afetarão também o leilão de energia marcado para o próximo dia 18 de dezembro: nele deveria ser oferecida a energia de sete hidrelétricas de menor porte, com capacidade de geração de 905 megawatts, mas apenas a de duas será ofertada.

A mais recente edição do boletim de conjuntura Brasil Real, editado pelo Instituto Teotônio Vilela, alerta para o fato de que, embora nos próximos dois anos haja sobra de energia projetada para ingresar no sistema, já em 2012 apenas 900 MW estão realmente assegurados, o que equivale a menos de um terço das necessidades anuais de expansão no país. Vale ressaltar que, para 2009, no início do ano a Aneel dava como certa a adição de 4.263 MW ao parque, mas até setembro (dado mais recente disponível) só metade disso se concretizara.

Os brasileiros vamos, desta maneira, convivendo com as (in)certezas do modelo elétrico criado por Dilma quando esteve à frente do Ministério de Minas e Energia, entre 2003 e 2005, e hoje gerenciado (gerenciado?) pela politicagem que grassa no governo petista. É melhor ir comprando seus geradores.