quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Estão invadindo a praia do nosso comércio exterior

Reina a euforia no mercado financeiro. Ontem a bolsa de valores brasileira atingiu seu mais alto patamar em 17 meses. Mais uma leve subida, e o recorde histórico da Bovespa será batido, o que pode ser questão de semanas – ou dias. Visto deste prisma, o país parece uma maravilha.

Mas o lado real da economia teima em mostrar sua face mais perversa. Também ontem foi conhecido o resultado da balança comercial de novembro: superávit de apenas US$ 615 milhões, o segundo pior do ano, atrás apenas do déficit registrado em janeiro.

O motor do comércio exterior brasileiro está desacelerado. E isso não significa apenas menos dinheiro no caixa dos exportadores – estes eternos chorões. Custa-nos crescimento menor da nossa economia e menos geração de oportunidades de trabalho. Perdemos todos.

O país não consegue vender tanto ao exterior quanto no ano passado, o que é natural, em meio à crise monstro da qual o mundo ainda não conseguiu emergir. Mas é assustador quando se prevê, como já faz o próprio governo brasileiro, que em 2010 mal conseguiremos repetir o desempenho exportador de dois anos atrás. Este ano, o saldo comercial já deverá encolher. Andamos para trás.

Para o ano que vem, a meta oficial passou a ser pelo menos empatar o nível de exportações de 2007, quando o país embarcou US$ 168 bilhões. Há quem preveja que já estejamos na ante-sala de uma nova safra de déficits no comércio internacional: a Fiesp, por exemplo, estima que as importações já voltem a superar as exportações em 2011, produzindo rombo de até US$ 10 bilhões no ano.

A mesma Fiesp tenta traduzir este déficit em prejuízos para a economia brasileira como um todo. Calcula que o país deixe de crescer entre 1,5% e 2% ao ano, como mostrou a Folha de S.Paulo há alguns dias. Quanto isso representa em termos de empregos a menos? Pelo menos algumas centenas de milhares.

As mais prejudicadas são as exportações de industrializados, os itens acabados de maior valor que o país embarca. Até setembro, também de acordo com a Fiesp, a queda no ano era de 24%. Mas o que pode parecer conjuntural, ou seja, decorrente apenas da crise atual, reveste-se de tintas estruturais: tal redução é a maior desde o início dos anos 80.

O país vende menos atualmente porque alguns de seus maiores parceiros comerciais, como os Estados Unidos e a União Européia, estão comprando menos. Mas também exporta menos porque tem uma moeda muito valorizada, coisa que alguns de seus concorrentes diretos, como a China, exorcizam.

Para tornar menos etérea toda esta discussão sobre a débâcle do nosso comércio exterior, vale citar um exemplo pinçado pelo Valor Econômico nos resultados da balança de outubro: em um ano as importações de carros da Coréia cresceram 820% e representam agora 1/5 das compras desta categoria feitas pelo Brasil.

No que isso nos afeta negativamente? Veículos e autopeças são justamente o setor cujas empresas instaladas no país mais perderam receita no terceiro trimestre deste ano, segundo levantamento da Economática: foram 31% menos em relação ao mesmo período de 2008. Os dados da balança parecem deixar claro quem está lhes tomando terreno.

Depois de os chineses terem ocupado alguns de nossos mercados no exterior, como, por exemplo, o argentino, agora são os coreanos que estão invadindo a nossa praia. É melhor se preparar: quando passar a euforia, pode vir uma ressaca daquelas por aí.