quarta-feira, 23 de junho de 2010

Crônica de mais uma tragédia anunciada

O Nordeste foi novamente vítima de uma calamidade. Com uma semana de duração, as chuvas já provocaram 41 mortes em Pernambuco e em Alagoas, onde também ocorreram mais de 600 desaparecimentos, de acordo com a Defesa Civil. É mais uma crônica de uma tragédia anunciada, como vira-e-mexe acontece. Por que o governo federal não age antes para evitar que isso volte a ocorrer?

Há muita verba no Orçamento da União para que desastres como os desta semana sejam prevenidos. Mas a balbúrdia administrativa e a má gestão não deixam os recursos chegar aonde devem: às obras e ações para evitar enchentes, inundações e calamidades. Se isso ocorresse, os dramas pessoais que todo o país tem acompanhado nos últimos dias poderiam ser evitados, ou, pelo menos, minorados.

Decorrido metade do ano, o governo federal só liberou R$ 3,2 milhões de um total de R$ 442 milhões reservados para prevenção de desastres no país em 2010. Isso dá míseros 0,74% do que há disponível, de acordo com o Siafi.

Outros R$ 67,3 milhões foram liberados, mas referentes a orçamentos de anos anteriores, os chamados restos a pagar. Mesmo assim, a conta não fica favorável ao governo: entregou apenas 14% do que se comprometeu, conforme mostrou a ONG Contas Abertas. Para Pernambuco, R$ 70 milhões estão disponíveis, foram liberados R$ 172 mil. Execução orçamentária tão sofrível não é minimamente aceitável num governo que entra em seu oitavo e último ano.

Situações como a que vivem os dois estados nordestinos neste momento transformam estes números frios em drama humano. Além das dezenas de mortes e das centenas de desaparecidos, o número de casas destruídas está próximo de 12 mil só em Alagoas. Em todo o Nordeste, o número de desabrigados passa de 115 mil. Muito disso poderia ter sido evitado com a ação tempestiva do poder público federal.

Esta lamentável situação de descaso e improviso não é novidade. É, infelizmente, rotina nos anos recentes. Em 2009, saíram dos cofres federais apenas R$ 47,2 milhões de um orçamento de R$ 646 milhões. Como explicar que, diante de tantas e recorrentes tragédias associadas à má ocupação de áreas e às cíclicas intempéries climáticas, o governo Lula só tenha gasto 7% da verba que tinha para prevenção de acidentes no ano passado?

O caos que marca a atuação federal fica ainda mais evidente quando se observa os gastos necessários para remediar a situação depois que as tragédias já ocorreram. Em abril, a vítima foi o Rio de Janeiro. Até então o estado não recebera quase nada para prevenir e preparar-se para desastres. Mas, depois das centenas de mortes na capital e Niterói, foram liberados R$ 542 milhões em menos de três meses.

Trata-se de algo lamentavelmente repetitivo. No ano passado, o governo federal precisou gastar R$ 1,13 bilhão para reparar a destruição causada pelas enchentes do verão em Santa Catarina. Ou seja, dinheiro há, mas, só depois que os infortúnios já deixaram seu rastro, a verba aparece. O que explica uma postura tão deplorável da parte do poder público federal?

A propósito, o governo Lula anunciou ontem a liberação de R$ 100 milhões para Alagoas e Pernambuco. É mais um exemplo de ação que mira holofotes, mas que, infelizmente, vem tarde. A burocracia não dará trégua mais uma vez: o dinheiro só chegará às regiões necessitadas daqui a um mês, como mostrou o portal G1.

Não é só o entrave burocrático que prejudica quem mais precisa do Estado numa hora de desespero como a que vivem agora os alagoanos e os pernambucanos. Há a deplorável manipulação política na liberação de verbas, como ficou-se sabendo à época das chuvas de abril no Rio.

Levantamento feito então pela ONG Contas Abertas mostrou que 61% da verba disponível para prevenção e preparação para desastres em todo o país havia ido para a Bahia: o estado recebeu R$ 24 milhões; juntos, outros 15 estados brasileiros foram contemplados com R$ 15,4 milhões. Não por acaso, o então ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, responsável pelo manejo dessas verbas, é postulante ao cargo de governador baiano.

No apagar das luzes, o governo petista resolveu tomar providências. Com a capacidade de raciocínio de um caracol, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, acaba de descobrir que "a nossa sistemática (de repasses) é muito burocrática". Foram necessários sete anos para chegar a esta brilhante conclusão. Temos aí um exemplo pronto e acabado da inoperância da gestão Lula. Parece que, para eles, as vítimas têm mais é que aguardar pacientemente. Provavelmente até que a próxima tragédia aconteça.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Segurança, educação e saúde

Saúde, segurança, educação e drogas são hoje, nessa ordem, segundo pesquisa recém-divulgada do Ibope, os temas que mais afligem os brasileiros. Não foi assim sempre.

Entre 2006 e 2010, esse ranking sofreu significativa alteração. O único item inalterado é a saúde, que continua em primeiro lugar, como demanda essencial da população. Os demais agravaram-se na percepção do cidadão médio. E não sem motivo.

Segurança e drogas, que a rigor, formam uma unidade, tornaram-se mais aflitivos, por razões óbvias: a criminalidade cresceu no país. Os números são impressionantes: 50 mil brasileiros, segundo dados da ONU, são assassinados por ano – a maioria jovens e pobres –, vítimas do crime organizado.

Uma guerra civil não declarada.

Equivale, num único ano, a cem vezes o número de mortos de ambos os lados nos 21 anos da ditadura militar brasileira. E é o mesmo número de vítimas da ditadura argentina em sete anos de feroz repressão, ou à do Chile, de Pinochet, em 13 anos de regime.

O binômio saúde-educação tem na segurança pública – e, dentro dela, o combate às drogas – uma conexão importante, ainda não suficientemente considerada. As drogas afetam educação, saúde e segurança. Oneram o Estado, comprometem a juventude, seu progresso, equilíbrio e bem-estar.

José Serra propôs um ministério específico – o da Segurança -, para um combate sinérgico, eficaz e menos caro. A ideia foi bem recebida por especialistas e pela população, mas desdenhada pelas duas principais candidatas. Atribuíram-lhe oportunismo.

Adiante, Serra falou da cocaína que vem da Bolívia, sem que o governo daquele país se empenhe em impedi-lo – e sem que o governo brasileiro reclame. Provocou protestos e manifestações por parte do governo e de seu partido, em defesa de Evo Morales, cujo nome sequer mencionou. Estranho.

O governo federal fala do combate ao crack, mas sem vinculá-lo a algo bem mais amplo, que é a rede continental do crime organizado. Essa rede, responsável pela guerra civil (nem tão) silenciosa, precisa ser exposta – e enfrentada.

Combater as consequências sem ir às raízes do processo é como enxugar o chão com a torneira aberta. É preciso fechá-la, e só um combate amplo, determinado e sistêmico pode fazê-lo. É onde entra o Ministério da Segurança.

Ele reunirá os instrumentos já disponíveis – Sivam, Polícia Federal, Abin –, hoje dispersos em diversos órgãos federais e os fará agir em sinergia, entre si, com os governos estaduais e com os países vizinhos que se dispuserem a auxiliar.

Afinal, é em sinergia que o crime organizado atua, com suas conexões subterrâneas com governos e organizações que se auto-intitulam movimentos sociais, mas não o são.

São apenas organizações criminosas, como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farcs), que vivem do roubo de gado, sequestro de cidadãos inocentes (aprisionados em campos de concentração na selva, como ocorreu com a senadora colombiana Ingrid Bettencourt) e tráfico de drogas.

Trocam cocaína por armas com organizações criminosas brasileiras, como Comando Vermelho e PCC, e alimentam toda uma rede de delinquências, que no Brasil vitima 50 mil pessoas por ano.

É essa rede que precisa ser exposta e desmontada. E é esse o compromisso do governo Serra, com a criação do Ministério da Segurança. Precisamos fechar a torneira do crime organizado. Ir às suas raízes, em defesa de nossa juventude e de nossa soberania.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

A escolha entre o bem e o mal

Um espectro ronda o país: a aposta petista no maniqueísmo absoluto, no "quem está comigo tudo pode e contra mim nada pode". É o epitáfio de uma era cujo principal legado é tentar igualar todos, por baixo. O partido que conviveu gostosamente com ilegalidades, irregularidades e imoralidades briga, agora, para impor ao país o cabresto da unanimidade.

Hoje, basta ser um aliado do governo para ter todos os seus atos justificados. Parlamentares comprometidos com o PT têm portas abertas para desvios, corrupção e proteção. Governante de qualquer lugar do mundo que teça loas ao presidente Lula ganha suas bênçãos, mesmo que seja um perigoso ditador.

Em contrapartida, criticar o governo tornou-se altamente perigoso. A ordem disseminada é desmoralizar quem ousa manter-se independente, na oposição ou na parcela minoritária que desaprova a atual gestão. Tudo é feito de forma a aplacar quem diga que o governo erra.

Caso uma instituição, seja o Tribunal de Contas da União ou o Ministério Público, descubra alguma irregularidade, a ordem é desmontar e esvaziar o órgão impertinente. Se um jornal ousa apontar graves desvios em políticas quaisquer do governo, a ordem é desmoralizar a imprensa como um todo.

É contra este estado de coisas que se insurge o agora candidato oficial da oposição José Serra. O ex-governador de São Paulo, mais uma vez, teve coragem de enfrentar a unanimidade truculenta que procura ser imposta a todos.

No lançamento de sua candidatura, sábado, em Salvador, Serra apresentou suas propostas e fez suas críticas sem abrir mão de um valor que parece estar um pouco esquecido em tempos petistas: o respeito à democracia e à liberdade de pensamento e expressão. "Ao contrário dos adversários políticos, para mim o compromisso com a democracia não é tático. Não é instrumental. É um valor permanente, inegociável", afirmou.

O candidato tucano deixou claro que a lei deve estar acima das intenções e planos de governantes de plantão, por mais que isso possa parecer absurdo ao petismo. O Estado se subordina à sociedade, e não ao governo de turno: assim é a regra nas democracias, assim deve ser no Brasil. "O tempo dos chefes de governo que acreditavam personificar o Estado ficou para trás há mais de 300 anos. Luis XIV achava que o Estado era dele. Nas democracias e no Brasil, não há lugar para luíses assim", disse Serra, numa época em que tentam transformar o lulismo em um novo peronismo-maoísmo.

Aos que justificam irregularidades e roubalheiras atuais à sombra de episódios pretéritos, Serra pespegou uma precisa definição: "Acredito que são os homens que corrompem o poder e não o poder aos homens. Quem justifica deslizes morais dizendo que está fazendo o que os outros fizeram, ou que foi levado a isso pelas circunstâncias, deve merecer o repúdio da sociedade. São os neocorruptos".

Não foi preciso nem esperar para ver quem iria vestir a carapuça: a resposta veio ontem mesmo, na convenção petista. Para os partidários de dona Dilma, da boca da oposição escorre "veneno". Curiosa a concepção desta gente sobre o livre manifestar. Veneno é tudo aquilo que os incomoda, tudo aquilo que desnuda o rei-sol. Sim, pode ser veneno aquilo que busca aniquilar o vírus da mentira que o PT tenta disseminar pelo país usando os mais espúrios meios.

O nome do jogo de Serra é coerência. Coerência com uma trajetória política de quatro décadas, reconhecida por milhões de brasileiros: "Não comecei ontem e não caí de paraquedas. Apresentei-me ao povo brasileiro, fui votado, exerci cargos, me submeti ao julgamento da população, fui aprovado e votado de novo".

O petismo de hoje tem horror a gente que age e pensa assim; a ordem é silenciá-las. Pela cartilha governista, é preciso esconder, de qualquer forma, opiniões desagradáveis como aquelas que mostram os sucessos da atual gestão, em grande parte, como resultado da maneira como o Brasil foi conduzido desde a redemocratização e mais notadamente a partir do Plano Real.

Neste gulag, ninguém deve saber que, em muitos quesitos, nos anos Lula o Brasil se desenvolveu bem menos do que devia: a educação ficou paralisada, a saúde não progrediu, os acordos comerciais não saíram do papel, a segurança pública piorou, a carga tributária avançou, os juros continuam nas alturas. Também é proibido dizer que, apesar do fenomenal crescimento de 9% do PIB no último trimestre, o Brasil é ainda um dos países que menos se expandiu na América do Sul nos últimos oito anos. Para os petistas, isso é só um monte de verdades inconvenientes.

Nesta guerra contra quem não está do "nosso lado", o governo abre seus cofres para batalhões de militantes, patotas coorporativas, centrais sindicais pelegas e órgãos de Estado transformados em aparelhos partidários.

Este é o dilema dos brasileiros. De um lado, um grupo que de se beneficia do sucesso da implantação de ideias que sempre condenou e está disposto a massacrar, como inimigos, quem denuncia seus equívocos e erros. Um grupo que luta para aboletar na presidência da República alguém que mantenha seus privilégios e continue a jogar para debaixo do tapete as mazelas descobertas, mas que, afora isso, não se sabe a que mais virá. Do outro lado, José Serra, que se apresenta com suas ideias rigorosas e propostas claras, com orgulho de não ter a ajuda ilegal de uma máquina que os petistas querem transformar em mortífera. O maniqueísmo real é outro: é entre o mal e o bem.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Ilegal, imoral ou engorda

Oficialmente a campanha presidencial nem começou, mas a turma do PT já mostrou o figurino com o qual irá desfilar nestas eleições: o da marginalidade descarada. Até agora, respeitar a lei foi o que menos importou para fazer dona Dilma crescer nas pesquisas. Para o petismo, notável por incluir o termo "mensalão" no léxico político brasileiro, o processo eleitoral é um vale tudo sem fim.

Os confrontos com a legislação começaram há dois anos com as viagens eleitorais, disfarçadas de atos oficiais, para fazer a candidata petista ser conhecida. Continuaram com a panfletagem explícita feita pelo presidente Lula, repetidamente multado pelo TSE. Ficaram sem graça com a instrumentalização das centrais sindicais, financiadas com polpudos recursos públicos. Agora, com a montagem de dossiês e equipes de arapongas, chegam à bandidagem pura e simples. É o velho PT de sempre - o do mensalão, dos aloprados - mostrando a sua cara.

Se o desrespeito às regras do jogo se limitasse aos rotineiros abusos verbais e ao uso ilegal do nosso dinheiro para fortalecer uma candidata, já seria suficiente para manchar o pleito de 2010. Mas a equipe do PT literalmente aloprou ao contratar gente do submundo policial para investigar tanto adversários como a si próprios. A regra era não ter limite, incluindo devassas na vida privada de oponentes e seus familiares, grampos telefônicos e divulgação de documentos e dossiês falsos na internet. Para o PT, disputa democrática é pura e simplesmente guerra de extermínio.

A estratégia veio a público na semana passada, por meio de várias reportagens. Os chefes petistas se apressaram a desmentir tudo. Chegaram até a insinuar que a própria oposição estaria se autobisbilhotando. Quanto cinismo! Não contavam que um dos envolvidos abrisse a boca para contar tudo. Na edição desta semana da revista Veja, Onézimo Sousa, delegado aposentado da Polícia Federal, admite que seria contratado por R$ 1,6 milhão para fazer o serviço sujo para o PT. Não só ele, mas toda uma equipe de arapongas agiria nos subterrâneos eleitorais.

Como costuma ocorrer em certas organizações criminosas, após a revelação um peixe pequeno rapidamente foi sacrificado - talvez para proteger os tubarões graúdos. No sábado, quando a revista começou a circular, Luiz Lanzetta, um dos chefes de comunicação da campanha de dona Dilma, "pediu demissão". Como parte do script, disse que agia sozinho na espionagem. Conta outra...

Os tentáculos da ilegalidade e da imoralidade petista vão muito além do submundo. Espraiam-se por instituições e entidades representativas, cooptadas e instrumentalizadas. É o caso das centrais sindicais, que, custeadas por dinheiro público, também fazem sua parte nesse festival infame.

Com sua antiga vertente mais combativa amansada por toneladas de dinheiro público e outra parcela igualmente dócil, sob o comando de gente acusada de desviar verbas do BNDES, elas torraram R$ 800 mil para fazer mais um evento ilegal de apoio a Dilma, ocorrido em São Paulo. Pode-se dizer que saiu barato, quando se sabe que o governo Lula patrocinou uma lei que permitiu às centrais receber R$ 200 milhões saídos do nosso bolso por meio do imposto sindical - aquele um dia de salário que todo ano descontam do seu contracheque.

A subversão da lei atinge até mesmo o mais alto mandatário do país. Na semana passada, pela quinta vez o TSE multou o presidente Lula por propaganda eleitoral antecipada. De novo: sai barato. Afinal, o que são R$ 35 mil diante da perspectiva de continuar comandando montanhas e montanhas de dinheiro público? O exemplo que Lula dá à formação ética do nosso povo é o pior possível: "Desrespeitem a lei; vale a pena!", parece querer dizer. Em que democracia madura um chefe da nação que age dessa maneira tem tanta benevolência?

O PT demonstra mover-se melhor no submundo. O partido exibe horror às regras do jogo. Diante de qualquer crítica, vocifera contra "os donos do poder", "as elites burguesas". Vive tentando criar instâncias paralelas que pretendem sobrepor-se às instituições da democracia representativa. Subsiste no petismo a utopia primitiva da democracia direta, e, se esta não pode ser alcançada por meios legais, que se subvertam as normas: o que interessa é manter-se grudados ao poder, custe o que custar.

Mesmo que tudo isso seja bem sucedido no curto prazo, certamente não sobreviverá ao escrutínio dos eleitores e ao julgamento da História. Até lá, a expectativa é que essa turma seja rapidamente enquadrada pelo Código Penal Brasileiro.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Impostos, uma quase unanimidade nacional

Tem gente que é contra baixar os juros; tem gente que é a favor. Tem gente que é contra expandir o Bolsa Família; tem gente que é a favor. Muita gente é favorável a reduzir os impostos; ninguém, exceto dona Dilma, é contra. A escorchante carga tributária brasileira é quase uma unanimidade nacional. Diminuí-la é bandeira que interessa a todos, menos à candidata do PT, que quer ressuscitar a CPMF.

O Brasil tem 83 tributos, taxas e contribuições. Para piorar, nosso sistema é perverso e penaliza quem mais necessita: de acordo com o Ipea, famílias que ganham até dois salários mínimos pagam 54% de tributos, em média. Para quem ganha mais de 30 salários mínimos, a carga é um pouco menor, mas nem por isso baixa: 29%.

Como a maior parte dos tributos arrecadados vem camuflada nos preços que pagamos por mercadorias e serviços, nos últimos anos foram inventadas maneiras didáticas de se ilustrar a montanha de dinheiro que deixamos nos cofres do governo. Uma delas é o impostômetro, criado pela Associação Comercial de São Paulo.

Nesta manhã, o placar, que fica no centro de São Paulo, alcançou a marca de R$ 500 bilhões pagos pelos brasileiros em tributos desde 1º de janeiro. Cada vez mais, a cifra simbólica é atingida mais cedo: em 2009, esse valor só foi alcançado em 24 de junho, ou seja, 22 dias mais tarde. Em 2008, foi em 25 de junho.

A previsão para este ano é de que o Brasil registre um novo recorde de arrecadação de impostos: R$ 1,2 trilhão, ante R$ 1,09 trilhão no ano passado. A carga tributária representa algo em torno de 35% do PIB. E não para de crescer: entre janeiro e abril, a arrecadação federal subiu 12,5% acima da inflação. Trocando em miúdos, em média, de cada R$ 1.000 que ganha, o brasileiro paga quase R$ 400 em impostos. Xô!

Outra forma ilustrativa de mostrar quão altos são os tributos que destinamos ao governo é transformá-los em quantidade de dias trabalhados. Hoje, o brasileiro labuta 148 dias do ano para sustentar a máquina pública: isso equivale a dizer que todo o salário recebido entre 1º de janeiro e 28 de maio ficou com os governos federal, estaduais e municipais.

A situação só tem piorado: em 2001 eram 130 dias; em 1991, 90. Pelo "padrão-calendário", nos anos Lula os governos apropriaram-se de mais 13 dias de trabalho do contribuinte. Em países como Argentina, Chile e México, a carga equivalente à renda do trabalho é proporcional a 90 dias do ano. Será que algum brasileiro quer continuar pagando tanto para ter tão pouco retorno?

Parece que não. E isso abarca até mesmo quem, teoricamente, justificaria a cobrança de impostos maiores. De acordo com sondagens do Instituto Análise, 75% dos brasileiros que recebem o Bolsa Família votariam em um candidato que reduzisse os impostos incidentes sobre os alimentos. O índice sobe para 84% entre os que não ganham o benefício. Já 67% dos brasileiros acreditam que "é melhor para os pobres que o governo reduza impostos, tenha menos funcionários públicos e, com isso, os produtos fiquem mais baratos".

Cortar impostos não é uma elucubração teórica, nem conversa de sonegador. Num país em que os serviços públicos são que qualidade sofrível, o peso dos tributos manieta as possibilidades de poupança e crescimento individual e dificulta investimentos e o desenvolvimento empresarial: o governo ficou com 45% da renda gerada pelas 100 maiores empresas abertas do país em 2009, conforme mostrou o Valor Econômico em sua edição de segunda-feira.

Tributação é o principal empecilho para o aumento dos negócios, segundo pesquisa feita entre empresários. Incomoda mais, muito mais, que juros e créditos. Uma continha rápida ilustra por quê. Sobre um contracheque de R$ 2 mil de um trabalhador brasileiro, uma empresa paga R$ 596 a título de INSS, Sistema S, salário-educação, contribuição para acidentes de trabalho, Sebrae e até para o Incra! Já o trabalhador tem R$ 241 descontados do contracheque para INSS e imposto de renda. Ou seja, do salário de R$ 2 mil, o governo recebe R$ 837, calculou Carlos Alberto Sardenberg.

Até agora, na campanha eleitoral, a única proposta de aumentar tributos foi feita pela candidata do PT. Para ela, foi um erro ter acabado com a CPMF, que até 2007 rendia polpudos R$ 40 bilhões anuais ao governo federal: "Não houve resultados práticos no que se refere ao bolso do consumidor". Em contraponto, José Serra prometeu zerar PIS e Cofins de investimentos em obras de saneamento básico.

Dizia Nelson Rodrigues que toda unanimidade é burra. Como dona Dilma não nos deixa ser unânimes, resta claro que diminuir a carga de impostos praticada no Brasil é medida inteligente. E urgente.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Bolívia: drogras, tô fora

As drogas estão no centro da agenda brasileira. É bom que seja assim: milhares de famílias estão sendo destroçadas em razão da crescente dependência, não apenas de jovens e adolescentes, da cocaína e de seu mais diabólico subproduto, o crack. Enfrentar este problema é prioridade para qualquer governo sério.

Hoje o debate em torno do combate à criminalidade está travado em função de um preceito constitucional: segurança pública, pelo texto aprovado em 1988, é papel dos estados e do Distrito Federal; a União fica fora. Chegou a hora de mudar isso. Todas as forças públicas de repressão devem ser direcionadas para fechar o quanto antes esta chaga.

Coube ao pré-candidato do PSDB à presidência, José Serra, botar o dedo na ferida. O governo federal, disse ele, deve embrenhar-se nesta luta renhida contra a criminalidade e, mais especificamente, contra as drogas. É direta a relação entre uma e as outras: a maior parte da violência em território brasileiro decorre hoje do tráfico. Para ficar num só exemplo: Juruena, no fronteiriço Mato Grosso, tem a assombrosa média de 139 homicídios por 100 mil habitantes, disparada a maior do Brasil.

E de onde vem a maior parte dos entorpecentes? Da Bolívia. Mas algo tão cristalino assim foi transformado pela chancelaria companheira numa protoceleuma diplomática. Não deveria. Basta consultar os informes da ONU para ver que está, sim, no país de Evo Morales o centro nevrálgico da produção de coca no mundo hoje.

Em seu World Drug Report 2009, as Nações Unidas informam que, em 2008, "pelo terceiro ano seguido" a área de cultivo na Bolívia cresceu. Já são 30,5 mil hectares, o que representa uma extensão duas vezes maior do que a ocupada em 2000.

Em queda constante, a área de pés de coca erradicada pelo governo boliviano em 2008 foi apenas metade da que se exterminou em 2002. Tudo somado, o país de Evo Morales é capaz de produzir 113 toneladas de cocaína, ou três vezes mais do que em 2000. Chapare e Yugas de La Paz são as principais áreas de cultivo. (Todos os dados são oficiais e foram reportados ou pelo Governo Plurinacional da Bolívia ou pelo Departamento de Estado Americano ou pela ONU.)

É verdade que a Bolívia já foi uma usina muita mais ativa de produção de coca. Graças à atuação conjunta com o Departamento Antidrogas dos EUA (DEA), em 2000 a produção declinou a menos de um terço do que era em meados dos anos 90. Mas, desde então voltou a crescer e, de 2005 para cá, a expansão não parou mais. (Evo assumiu a presidência boliviana em 25 de janeiro de 2006 e, logo depois, invocando a famigerada retórica antiimperialista, expulsou o DEA da Bolívia.)

Também é fato que a Bolívia é apenas o terceiro maior produtor mundial de cocaína, atrás, nesta ordem, de Colômbia e Peru. Mas há algumas razões para a preocupação específica do Brasil em relação ao cultivo boliviano. Em primeiro lugar, no principal produtor, a Colômbia, as áreas de plantio e produção estão caindo: 18% e 28%, respectivamente, em 2008, em comparação com o ano anterior. (No Peru houve uma discreta alta.)

Mas o mais relevante é que, considerada de menor qualidade e refutada entre consumidores dos Estados Unidos e Europa, a cocaína boliviana é que abastece o mercado brasileiro. Segundo a Divisão de Controles de Produtos Químicos da Polícia Federal, 80% da cocaína consumida no país vem da Bolívia, conforma mostrou a Folha de S.Paulo. Desde que Morales assumiu o poder, o tráfico cresceu exponencialmente nas rotas viárias que chegam ao Brasil, como informou a revista Veja em sua edição desta semana.

Além de ser considerado o segundo maior consumidor de cocaína no mundo, com cerca de 900 mil usuários, após os EUA, o Brasil também tem se consolidado como rota internacional de tráfico. Aeronaves de traficantes que partem da Bolívia são reabastecidas em fazendas remotas do Centro-Oeste e da Amazônia e seguem dali para África ou Europa.

Daí a preocupação em fechar, o quanto antes, este canal, antes que a disseminação da droga extermine o futuro de milhares de famílias brasileiras. Por que não aceitar esta verdade incômoda e começar a agir já?

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Como preparar e servir um embaraço mundial

Uma das grandes ambições do atual governo é colocar o Brasil definitivamente entre os protagonistas mundiais. De fato, os brasileiros merecem. A assinatura do acordo do Irã seria o passaporte para este mundo de poderosos. Mas, manipulada tanto pelos EUA como pelo Irã, a diplomacia petista só não se deu conta de que o país acabaria atuando no papel principal de uma comédia armada.

Coloque em um caldeirão grandes doses de megalomania e um montante de vaidade. Junte com um pouquinho de boa intenção e um pacote grande de ingenuidade. Adicione a necessidade de aplausos. Não se esqueça de incluir uma protoditadura de terceiro mundo e a retórica esquerdista a la anos 60. Deixe esquentar e misture bem. Tempere com bastante soberba. Pronto, já está servido ao mundo um perfeito embaraço internacional.

Conduzido por cozinheiros como o chanceler Celso Amorim e o assessor internacional da Presidência, Marco Aurélio Garcia, e com o aval "secreto" do chef Barack Obama, o aprendiz Lula levou o Brasil a servir o maior constrangimento de sua história diplomática. Em busca da paz mundial, fechou um acordo com o Irã de Mahmoud Ahmadinejad. Apresentado em meio a slogans para ser eterno, o trato não resistiu a um dia sequer de realpolitik.

Firmado na semana passada, no papel o tratado é gracioso. Foi até estimulado por Obama. Para evitar reprimendas da Organização das Nações Unidas, o Irã deveria trocar 1,2 tonelada de urânio de sua propriedade por 120 quilos do mesmo metal enriquecido na Turquia. Como é sabido, enriquecer urânio é necessário para uso médico, mas, no extremo, também pode levar à fabricação da bomba atômica. No final das contas, seria até emocionante a imagem de Lula e Ahmadinejad, de mãos dadas, comemorando o trato "histórico". Mas a pantomima durou pouco.

No dia seguinte, o choque. Desconfiado do Irã, Obama tinha abandonado o barco, que começara a naufragar. A secretária de Estado americano, Hillary Clinton, até elogiou a atitude do Brasil, e coisa e tal. Mas anunciou sanções contra o Irã no Conselho de Segurança da ONU. Aconteceu o que o Brasil queria evitar. A esperança verde-amarelo era de que China e Rússia rechaçassem a proposta de Hillary, pois, em tese, eram "nossos amigos". Pura ilusão.

Todos os grandes fecharam com os EUA. Até nossos hermanos mexicanos preferiram seguir a orientação do Norte. Foi como se o governo de Obama dissesse ao Brasil e à Turquia: "Pronto, meninos, agora saiam do tanque de areia para que nós, os grandes, possamos brincar". Ficou a incômoda impressão de que Lula agiu como garoto de recados de Obama, que mudou de ideia mais tarde. Haja brejeirice.

Os próprios iranianos também surpreenderam os brasileiros. Também no dia posterior ao acordo, anunciaram que não iriam parar de enriquecer seu urânio - os estoques cresceram no período. Em meio à perplexidade, talvez tenha faltado avisar nossos diplomatas de que no Irã o presidente é quase um adereço. Quem tem poder de fato é o aiatolá Ali Khamenei, chefe da chamada Guarda Revolucionária, instituição que funciona independentemente do exército do país. E são os paramilitares chefiados pelo líder religioso que podem impedir ou não a construção da bomba.

Parece que as potências sabiam bem disso ao isolar o Brasil sem maiores explicações. Com o estrago já feito, a única coisa que nossos diplomatas podem fazer para diminuir o vexame é torcer para que o Conselho de Segurança da ONU reverta a decisão anunciada.

Mas o contratempo iraniano não significa que o Brasil deve colocar o rabo entre as pernas e deixar de lado a luta para ser um protagonista mundial. Ao contrário. O desenvolvimento brasileiro exige tal papel. Ocorre que, hoje, essa batalha está sendo travada por meio de lentes distorcidas, que incluem um contraditório antiamericanismo da boca para fora, sujeição a Obama nos bastidores e mão na cabeça de ditadores que soltem grunhidos contra os ianques.

Nessa toada meio biruta de aeroporto, a diplomacia tupiniquim tem sido omissa em relação aos avanços autoritários do coronel Hugo Chávez e não perde a oportunidade de abençoar a carcomida ditadura dos irmãos Castro. Enquanto isso, o Brasil só conseguiu assinar um tratado comercial em toda a gestão petista, com Israel. Ou seja, o blábláblá ainda se dá em detrimento de uma política externa realmente efetiva.

O Brasil faria melhor para conquistar o devido respeito se também apoiasse firmemente a democracia no mundo, sobretudo entre os vizinhos. Há tarefas urgentes a serem feitas por aqui, na América do Sul. O governo não dá a devida prioridade à escalada do protecionismo argentino; não liga tanto assim para conflitos envolvendo guerrilheiros na Colômbia e no Paraguai, e suas ramificações com a droga que assola o país; não vê relevância nas disputas marítimas entre Chile e Peru; e sai de fininho nas querelas comerciais com Argentina e Uruguai.

Se atuasse nesses pontos, quem sabe, a almejada cadeira definitiva no Conselho de Segurança da ONU seria mais merecida. Mas o PT deve achar que isso tudo é coisa pouca. Na ansiedade de servir um bom prato para os ricos, a quem gosta de criticar apenas para fazer tipo, o "Itamaraty do B" é desleixado com a fome de conciliação e democracia de alguns colegas mais pobres.

Fiquemos com a precisa definição de Andres Oppenheimer para este caso de megalomania: "O Brasil não pode ser um anão diplomático em sua própria região e tentar ser um gigante longe de casa".

À venda negócios sem riscos

O Brasil oferece hoje uma extensa carteira de oportunidades para quem pretende investir. Com imensas carências de infraestrutura, obra a ser feita é o que não falta. Tem para todos os gostos. Mas o governo Lula parece preferir as monumentais, altamente custosas e, num mundo encantado jamais sonhado por um capitalista, sem riscos para os empreendedores. O negócio do PT é fazer negócio.

Exemplo gritante é o que envolve a construção do trem-bala. É um emblema do PAC: tão grandiosa quanto empacada. Ninguém sabe quando a obra sairá do papel, mas já se sabe que ela pode vir a ser uma barbada para o investidor: empreendimento bilionário com risco assumido pelo Tesouro - ou melhor, bancado pelo meu, pelo seu, pelo nosso dinheiro de contribuinte.

Sabe-se agora, como mostra O Estado de S.Paulo, que dos R$ 34,6 bilhões previstos para a obra, o governo federal pode subsidiar uns R$ 8 bilhões. Isso porque, pelo escopo desenhado para reduzir riscos e atrair investidores, o custo do empréstimo para construir o trem-bala pode ser até três pontos percentuais menor que a TJLP - a taxa de juros de longo prazo usada pelo BNDES em seus financiamentos. Não é só. 60% do valor do investimento virá de uma linha de crédito a ser criada pelo BNDES.

O trem-bala deve unir Campinas ao Rio. De início previa-se que, nesta altura do campeonato, o edital já estaria na rua e o leilão a um passo de acontecer. Bom, isso no lindo mundo delirante petista, onde tudo é bem planejadinho, como defendeu dona Dilma diante dos empresários da CNI ontem, em Brasília.

Na vida real, o túnel é bem mais escuro. O processo do trem-bala não sai do lugar, rateia. Já se fala que para a Copa de 2014 - cronograma inicial para conclusão da obra - não estará pronto, quiçá em 2016, mesmo assim só um trecho. Parece que nem no fim da travessia há luz.

É por estas e outras que, ao delírio petista de que ressuscitou o planejamento estratégico no país, a oposição contrapõe o duro choque do real: que planejamento? Não é só o trem-bala que põe por terra a fantasia de dona Dilma. Não é necessário sair do campo ferroviário para chegar a uma imensa lista de obras frustradas, que só existem em letrinhas impressas em papel.

A começar pela Transnordestina, anunciada pelo presidente Lula como sua principal ação no Nordeste. O BNDES já pôs dinheiro na empresa privada responsável pela obra, o Orçamento já destinou R$ 4,5 bilhões para os trilhos, mas, até agora, nada. A ferrovia, que, de fato, é importantíssima para alavancar o desenvolvimento econômico em amplas áreas da região, só rende boas imagens em programas maquiados para a TV.

Tem mais: a ferrovia Norte-Sul, crucial para tornar os grãos produzidos no Centro-Oeste mais competitivos. Ao todo, dentro do PAC, a previsão de investimentos na ferrovia é de R$ 5 bilhões, dos quais, passados 40 meses de lançamento do programa, foram pagos tão-somente R$ 1,7 bilhão (ou 34% do previsto). Sem a Norte-Sul, os produtores rurais se ressentem de bancar fretes até Santos e Paranaguá tão caros quando se paga para levar o produto dos portos brasileiros à China.

Enquanto prepara-se para derramar toneladas de dinheiro público no trem-bala, o governo federal dá de ombros para obras sobre trilhos que, efetivamente e de imediato, mudariam a vida de milhões de pessoas que vivem em metrópoles. No metrô de São Paulo, não há dinheiro da União; o de Belo Horizonte, não sai do lugar; o de Fortaleza, há dez anos está parado; e o de Salvador, mesmo sem conseguir sair do papel, só fez encolher nos anos Lula.

Tem razão a oposição quando afirma que falta ao atual governo "planejamento, qualidade de gestão e capacidade para dar sequência aos investimentos", como fez ontem o pré-candidato José Serra no mesmo evento promovido pela CNI em Brasília. Talvez seja conveniente para o petismo que seja assim: quando impera a barafunda, crescem as chances de fazer negócios. Ainda mais quando eles não envolvem risco algum para o investidor. Uma pechincha.

À venda negócios sem riscos

O Brasil oferece hoje uma extensa carteira de oportunidades para quem pretende investir. Com imensas carências de infraestrutura, obra a ser feita é o que não falta. Tem para todos os gostos. Mas o governo Lula parece preferir as monumentais, altamente custosas e, num mundo encantado jamais sonhado por um capitalista, sem riscos para os empreendedores. O negócio do PT é fazer negócio.

Exemplo gritante é o que envolve a construção do trem-bala. É um emblema do PAC: tão grandiosa quanto empacada. Ninguém sabe quando a obra sairá do papel, mas já se sabe que ela pode vir a ser uma barbada para o investidor: empreendimento bilionário com risco assumido pelo Tesouro - ou melhor, bancado pelo meu, pelo seu, pelo nosso dinheiro de contribuinte.

Sabe-se agora, como mostra O Estado de S.Paulo, que dos R$ 34,6 bilhões previstos para a obra, o governo federal pode subsidiar uns R$ 8 bilhões. Isso porque, pelo escopo desenhado para reduzir riscos e atrair investidores, o custo do empréstimo para construir o trem-bala pode ser até três pontos percentuais menor que a TJLP - a taxa de juros de longo prazo usada pelo BNDES em seus financiamentos. Não é só. 60% do valor do investimento virá de uma linha de crédito a ser criada pelo BNDES.

O trem-bala deve unir Campinas ao Rio. De início previa-se que, nesta altura do campeonato, o edital já estaria na rua e o leilão a um passo de acontecer. Bom, isso no lindo mundo delirante petista, onde tudo é bem planejadinho, como defendeu dona Dilma diante dos empresários da CNI ontem, em Brasília.

Na vida real, o túnel é bem mais escuro. O processo do trem-bala não sai do lugar, rateia. Já se fala que para a Copa de 2014 - cronograma inicial para conclusão da obra - não estará pronto, quiçá em 2016, mesmo assim só um trecho. Parece que nem no fim da travessia há luz.

É por estas e outras que, ao delírio petista de que ressuscitou o planejamento estratégico no país, a oposição contrapõe o duro choque do real: que planejamento? Não é só o trem-bala que põe por terra a fantasia de dona Dilma. Não é necessário sair do campo ferroviário para chegar a uma imensa lista de obras frustradas, que só existem em letrinhas impressas em papel.

A começar pela Transnordestina, anunciada pelo presidente Lula como sua principal ação no Nordeste. O BNDES já pôs dinheiro na empresa privada responsável pela obra, o Orçamento já destinou R$ 4,5 bilhões para os trilhos, mas, até agora, nada. A ferrovia, que, de fato, é importantíssima para alavancar o desenvolvimento econômico em amplas áreas da região, só rende boas imagens em programas maquiados para a TV.

Tem mais: a ferrovia Norte-Sul, crucial para tornar os grãos produzidos no Centro-Oeste mais competitivos. Ao todo, dentro do PAC, a previsão de investimentos na ferrovia é de R$ 5 bilhões, dos quais, passados 40 meses de lançamento do programa, foram pagos tão-somente R$ 1,7 bilhão (ou 34% do previsto). Sem a Norte-Sul, os produtores rurais se ressentem de bancar fretes até Santos e Paranaguá tão caros quando se paga para levar o produto dos portos brasileiros à China.

Enquanto prepara-se para derramar toneladas de dinheiro público no trem-bala, o governo federal dá de ombros para obras sobre trilhos que, efetivamente e de imediato, mudariam a vida de milhões de pessoas que vivem em metrópoles. No metrô de São Paulo, não há dinheiro da União; o de Belo Horizonte, não sai do lugar; o de Fortaleza, há dez anos está parado; e o de Salvador, mesmo sem conseguir sair do papel, só fez encolher nos anos Lula.

Tem razão a oposição quando afirma que falta ao atual governo "planejamento, qualidade de gestão e capacidade para dar sequência aos investimentos", como fez ontem o pré-candidato José Serra no mesmo evento promovido pela CNI em Brasília. Talvez seja conveniente para o petismo que seja assim: quando impera a barafunda, crescem as chances de fazer negócios. Ainda mais quando eles não envolvem risco algum para o investidor. Uma pechincha

quinta-feira, 20 de maio de 2010

CPMF no bolso dos outros é refresco

Dilma Rousseff tem uma visão bastante particular do que seja pagar e recolher tributos. Acha que cobrá-los a menos não faz a menor diferença para quem paga, só para quem arrecada. Deve ser por isso que ela, em entrevista à rádio CBN na segunda-feira, tenha dito que o fim da CPMF não trouxe "resultados práticos no que se refere ao bolso do consumidor". Qualquer um de nós, contribuintes, sentiu a diferença; será que só ela não?

A CPMF rendia R$ 40 bilhões à União por ano - frise-se que era apenas à União, nada a estados e municípios. Como se trata de uma contribuição social, no arcabouço legal brasileiro ela compete apenas ao governo federal e não é compartilhada com os demais entes subnacionais, que participam apenas da repartição de alguns impostos, como o de renda e o IPI.

A CPMF foi derrubada em votação no Senado Federal em fins de 2007, coroando uma renhida luta da oposição pela diminuição dos tributos no país. Na época, o governo Lula alertou para a necessidade de "cortar na carne" para compensar a diminuição dos recursos disponíveis. A saúde, dizia-se, seria a maior prejudicada. A oposição mostrou que bastava gastar melhor para fazer mais com os mesmos recursos. Não estava errada.

No ano seguinte, já sem CPMF, a arrecadação tributária alcançou seu pico no país: 35,16% do PIB, nos cálculos do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT). Recorde absoluto. Foram R$ 1,056 trilhão, com alta predominante dos tributos federais. Em 2009, os cofres continuaram a encher: foram mais R$ 36 bilhões, ainda que a carga tenha caído em proporção do PIB. Cada brasileiro pagamos, em média, R$ 5.706,36 em tributos no ano passado. Ai meu bolso!

Mas não é preciso voltar tanto no tempo. Basta ver o que está ocorrendo neste ano mesmo. Entre janeiro e abril, a arrecadação federal cresceu 12,5% acima da inflação medida pelo IPCA, segundo resultado divulgado ontem pela Receita Federal. Transformemos isso em moeda sonante: foram R$ 39,4 bilhões a mais do que no mesmo período do ano passado. Ou seja, em apenas quatro meses recolheu-se a mais exatamente o valor da extinta CPMF de um ano todo! Será que dona Dilma acha mesmo que está faltando dinheiro?

Se a preocupação da candidata do PT é com o financiamento da saúde, é louvável. Mas a saída não é cobrar mais tributos dos cidadãos. Há uma solução tão singela quanto efetiva na agenda parlamentar: regulamentar a emenda constitucional nº 29, que define percentuais mínimos de aplicação de recursos em ações e serviços públicos de saúde por União, estados e municípios.

A proposta chegou ao Congresso no bojo de uma ampla mobilização catalisada pelo então ministro da Saúde, José Serra. Foi aprovada em 2000, com largo apoio dos mais diversos partidos. Mas, para vigorar, a emenda demanda legislação complementar. Disso dispõe o PLS 121/2007 do senador Tião Viana (PT-AC), em tramitação no Congresso, mas que o governo Lula recusa-se a votar.

A aplicação da emenda 29 já poderia estar gerando recursos mais robustos para o financiamento da saúde em todo o país. A Confederação Nacional de Municípios (CNM) fez alguns cálculos. De acordo com tais estimativas, neste e nos últimos dois anos teriam sido investidos mais R$ 57,7 bilhões na melhoria do sistema público, caso a nova legislação já estivesse em vigor.

O mais curioso é que quem mais tem ficado a dever é justamente o governo federal. Desde o início da gestão Lula, se a EC 29 tivesse sido obedecida, a União teria aplicado mais R$ 13,4 bilhões em saúde. Mais significativo ainda é que no período 2000-2002, ou seja, nos dois primeiros anos após a aprovação da emenda e ainda no governo tucano, a União gastou até mais do que previam as novas regras: foram R$ 1,7 bilhão adicionais.

Quando o cobertor encurta, a solução é saber gastar melhor. O ex-governador Aécio Neves tem uma boa orientação para situações assim: gastar menos com o próprio governo, com a burocracia, para poder investir mais nas pessoas, na população. Mesmo tendo anunciado, lá em 2007, que seria necessário "cortar na carne", o que o governo do PT fez foi justamente o contrário: abriu as torneiras das benesses salariais. Agora fica sem saber como fazer para atender melhor a população. Pelo visto já está mirando o bolso dos contribuintes.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Antes tarde do que nunca

Com a temporada eleitoral prestes a começar, avizinha-se uma civilizada transição de governo. Sinais neste sentido surgiram na semana passada com o anúncio de corajosas medidas impopulares por parte da gestão Lula. Significa que a luta renhida pelos votos não resultará no sangramento da saúde que exibe o país. É bom que seja assim.

Após inúmeros sinais amarelos, o governo tirou o pé do acelerador do aumento descontrolado dos gastos públicos. Para garantir uma expansão equilibrada do crescimento econômico, foi anunciado um corte adicional de R$ 10 bilhões nas verbas do Orçamento. A intenção é evitar uma explosão inflacionária que poderia ameaçar boa parte das conquistas econômicas e sociais dos últimos anos.

Como o governo já havia contingenciado outros R$ 21,8 bilhões anteriormente, serão mais de R$ 30 bilhões bloqueados. Isso significa retirar cerca de 1% do PIB de circulação.

Agora, o desafio da equipe econômica é fazer os cortes sem prejudicar áreas importantes do país como o Bolsa Família, os investimentos em saúde ou o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). A ideia é diminuir, preferencialmente, os chamados gastos de custeio, como passagens, luz elétrica, material de escritório, diárias etc. Esta é a boa economia, que não prejudica a prestação de serviços aos cidadãos.

A medida é necessária porque o freio na liberação de verbas do Orçamento diminui a quantidade de recursos na economia. O excesso de moeda, ao invés de trazer desenvolvimento a uma nação, pode levá-la a desequilíbrios incontroláveis: o curva do consumo (demanda) descasa da da produção (oferta), e, com isso, desloca o nível de preços para o alto. A isso se dá nome de inflação. O Brasil já sofreu por décadas com o drama e não deve correr riscos novamente.

De acordo com os economistas do governo, o máximo que o país consegue crescer sem uma alta de preços é 6%. Sem o corte, a previsão de aumento do PIB este ano era superior a 7%. Há quem diga que o PIB potencial não ultrapasse 4,5% de crescimento anuais. Em qualquer das hipóteses, é bom evitar riscos.

A austera iniciativa também pode servir para evitar elevações mais robustas nas já altas taxas de juros brasileiras e abre espaço para o cumprimento da meta de superávit primário (a diferença entre arrecadação e gastos, sem o pagamento de juros) prevista para 2010: 3,3% do PIB, que, por ora, ainda parecem inalcançáveis.

É significativo que o governo do PT tenha resolvido cortar seus gastos em pleno ano eleitoral, quando o comum é a abertura descontrolada das torneiras. Talvez esteja aí um sinal inequívoco da maturidade democrática do país, com a aceitação pacífica da alternância de poder – algo que, de resto, a civilizadíssima transição entre Fernando Henrique e Lula já inaugurara.

É bem-vinda a responsabilidade no trato com o dinheiro do cidadão que o atual governo agora exibe. É de se esperar que já não tenhamos atravessado o sinal amarelo da prudência para termos que frear bruscamente diante do sinal vermelho do alarme. É do interesse de todos que o país continue a avançar.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Um Atlas Geográfico de presente para dona Dilma

Já tentaram de tudo para fazer a candidatura de dona Dilma decolar: mudar sua voz, o tamanho de suas respostas aos jornalistas, a cor das roupas e mesmo sua irascível personalidade carrancuda. Na barafunda que é o comando de campanha petista, há líderes que lutam até para proibir que a candidata cumprimente os concorrentes com dois beijinhos, ato que demonstraria “submissão feminina”. Como se vê, programar a ciborgue não está sendo tarefa fácil.

A confusão é tanta que a oposição nem tem precisado fazer críticas, basta ler o que os governistas falam uns dos outros. É o presidente do PT contra ex-prefeito do PT; deputados petistas contra o marketing da campanha; parlamentares contrariados com a arrogância da candidata e por aí afora. E há todos contra a equipe de internet de Dilma. Continuem assim, companheiros!

Em desespero, os petistas resolveram jogar pesado. Além de lançar mão despudoradamente do aparato estatal – como no Dia do Trabalho e, mais uma vez, na sexta-feira no lançamento de um navio da Transpetro em Pernambuco – apelam agora para a mais carcomida das estratégias do petismo: a da mentira pura e simples. As falsidades ocorrem em dois eixos: de um lado, o governo Lula se atribuiu conquistas que não são suas e, de outro, o PT ataca desonestamente a oposição por coisas que ela não fez nem irá fazer.

O exemplo mais curioso de como o PT se avoca o título de inventor da pólvora está na propaganda publicada nos principais jornais brasileiros na última sexta-feira. Ao custo de R$ 60 milhões, o governo se auto-elogia por sua política de construção de escolas técnicas federais. Mas se esquece de avisar ao distinto leitor que constam das peças publicitárias um bocado de escolas inauguradas antes da chegada de Lula ao Planalto ou mesmo unidades que nunca existiram, como mostrou a Folha de S.Paulo.

Divididas por estados, as peças publicitária são um festival de má-fé e equívocos. No Rio de Janeiro, a nova unidade do Centro Federal de Educação Tecnológica Maria da Graça é apresentada como obra petista. No entanto, já está pronta desde 1997, época do primeiro mandato de Fernando Henrique.

Ao falar do Distrito Federal, a propaganda exibe cinco escolas supostamente novas. A verdade é que quatro não existiam e uma foi inaugurada em 1958, por Juscelino Kubitscheck! Ficamos à espera, agora, de uma peça anunciando que o Brasil foi descoberto pelo presidente Lula à frente das caravelas portuguesas.

A campanha petista não é apenas mentirosa; é também desinformada. As peças veiculadas em São Paulo são um atentado à geografia: as cidades apontadas no mapa estão todas fora do lugar. Campinas aparece no norte paulista; Piracicaba foi parar quase no Pontal do Paranapanema e a montanhosa Campos do Jordão migrou para o centro do estado.

Desconhecer o Brasil não é novidade na seara petista. Dona Dilma é pródiga em embaralhar as coordenadas: já trocou Rondônia por Roraima; já falou para Juiz de Fora estando em Governador Valadares. Daqui a uns dias, corre o risco de confundir Brasil com Venezuela. Alguém precisa dar, urgentemente, um Atlas Geográfico de presente para esta gente.

Mas a questão das escolas falsas é, infelizmente, apenas a parte “ingênua” da guerra comandada pelo petismo para continuar no poder. No campo da estratégia suja estão os filmetes eleitorais com ataques histéricos ao PSDB. Num deles, a possível vitória da oposição em 2010 é comparada ao descer de uma montanha russa, com os passageiros em pânico. Em outro, a própria dona Dilma pede a continuidade do governo. Mas, desta vez, a Justiça Eleitoral agiu rápido, proibindo novas inserções da peça.

O surpreendente é que as inserções de TV são até tímidas se comparadas com ações mais casca grossa, como o jornal “Movimentos”, produzido sob as bênçãos da direção do PT. Em uma afronta à inteligência do leitor, o jornal conclama os movimentos sociais a lutar contra “os mentores do golpe militar de 1964”, que estariam nos poderes Legislativo, Judiciário, parte da burocracia do Executivo e setores da mídia, como mostrou a Folha de S.Paulo.

Para o jornal, que traz editorial assinado pelo presidente do PT, as opções do Brasil são entre “Dilma ou a barbárie”. Trata-se de uma perigosa baboseira, que difunde uma visão paranóica e obtusa do Brasil. Vai ficando cada vez mais claro o que move a candidata-ciborgue do PT: mentira, mistificações e terrorismo eleitoral. Ao Brasil dividido que eles perseguem, a proposta tucana contrapõe a união do país, num debate sério sobre o futuro e sobre quem é mais preparado para conduzir a nação.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Dez anos de responsabilidade, a contragosto do PT

Nesta semana comemora-se dez anos da entrada em vigor da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). “Comemora-se” é, de fato, o termo mais adequado para se referir à data: não há, hoje, voz contrária à norma que revolucionou o trato das finanças públicas no país, algo muito diferente do que aconteceu quando ela foi discutida, na virada do milênio. Não é difícil adivinhar quem era contra e hoje pia baixinho: os suspeitos de sempre, os petistas.

Se hoje o governo do PT louva e enaltece, às vezes em brados, às vezes sob sussurros, a LRF, antes era muito diferente. Ao seu velho estilo bravateiro, o partido votou em bloco contra a aprovação da lei, realizada em 25 de janeiro de 2000. Parlamentares que viriam a ocupar sete ministérios de Lula, dois governos de estado e um monte de prefeituras pelo país afora estão na lista do “não” daquela sessão. É de se perguntar como teriam governado se tivessem se saído vitoriosos.

Não satisfeitos com o resultado – uma acachapante aprovação com 385 votos, suficientes para aprovar até emenda constitucional, a 86 –, PT, PSB e PCdoB foram bater às portas do Supremo com uma ação arguindo a inconstitucionalidade da lei. Derrubada liminarmente, até hoje não teve seu mérito apreciado pelos ministros da corte, mas, curiosa e simbolicamente, obteve da AGU, já em 2008, a opinião de “total constitucionalidade”. Quanta ambiguidade.

A LRF começara a nascer 12 anos antes, quando das discussões havidas na Assembleia Constituinte – que resultou na Constituição que hoje nos rege e que o PT recusou-se a assinar em 1988. Partiu do então deputado José Serra, relator da Comissão de Finanças e Tributação, a iniciativa que resultaria no artigo 163 da Constituição, prevendo a edição de uma lei complementar para disciplinar as finanças do país. Deu na LRF.

Aos leitores mais novos é sempre bom recordar: naquela época, como ainda permaneceria durante um longo período à frente, as finanças públicas no país eram pouco mais do que uma monumental balbúrdia. Num país em que a inflação mensal teimava em não baixar de dois dígitos e que ao ano contava-se às centenas, as previsões orçamentárias não passavam de futurologia. Miragem pura mesmo.

Com a engenharia do Plano Real, que pôs fim à cortina de fumaça que a inflação impunha às contas públicas, ficou evidente que havia gastos demais para dinheiro de menos. O processo seguiu-se então com um ajuste nas finanças de estados e municípios, que resultou no equacionamento de dívidas e na liquidação de instituições bancárias públicas, verdadeiro sorvedouro de recursos (entre 1983 e 1991, a União gastou R$ 61 bilhões com empréstimos e subsídios, relembra o Valor Econômico).

Mas, para encurtar uma história que daria um livro – mas que, pela a ótica triunfalista e personalista que vigora no país nestes últimos anos, não passa da nossa pré-história e, sob este prisma, seria digna de esquecimento –, concentremo-nos apenas na LRF. Em dez anos de vigência, para dizer o mínimo, ela ajudou o país a enfrentar enormes turbulências, como a de 2008/2009, e a tornar o dinheiro dos contribuintes mais bem tratado pelos governantes.

Tome-se o que ocorreu nos estados, hoje um polo consistente de responsabilidade fiscal. Em dez anos, viram suas dívidas crescer metade do que subiram suas receitas, invertendo um ruinoso processo que tolhia sua capacidade de investimento. Junto com os municípios, são, na realidade, os verdadeiros heróis da austeridade fiscal no país, ainda mais nos anos Lula, em que a catapulta do governo central só faz jogar os gastos para o alto.

Mesmo com seus muitos avanços, a LRF mantém-se capenga. Ao contrário do que muitos imaginam, ela só impõe limites de endividamento a estados e municípios; a União está livre, leve e solta para gastar. O resultado é que, nestes dez anos, a dívida federal total e a dívida mobiliária aumentaram bem mais do que o PIB, como mostrou o Estadão na sua edição de domingo.

Fato é que, dependêssemos do que pensa o PT, estaríamos a esta altura nas catacumbas, num atoleiro tão gosmento quanto o que engole os gregos neste momento. Pão, pão, queijo, queijo, a LRF é dura para proteger o dinheiro que não é do governante, mas sim de cada um dos contribuintes. Indiferente, o governo petista tenta, a todo custo, driblá-la, criando subterfúgios atrás de subterfúgios contábeis. Haja criatividade. Engana a quem?

A consequência está aí, para todo mundo ver: despesas que crescem de maneira explosiva, como bomba-relógio pronta para detonar no colo do próximo presidente. Só no primeiro trimestre, a alta foi de 13,8% acima da inflação, nos cálculos do especialista Raul Velloso. Foi a maior elevação em sete anos.

Com as receitas fiscais voltando a crescer, a hora seria bastante apropriada para ajustar as despesas. Mas, até numa demonstração de que não acredita que um dos seus estará no centro do picadeiro daqui a alguns meses, o governo petista parece querer ver as labaredas consumindo a lona do circo. Na dúvida, melhor ligar 193, porque, mesmo com todo o seu sucesso, só a Lei de Responsabilidade Fiscal pode ser pouco diante dessa gente.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Com meu, com o seu, com o nosso dinheirinho

Nas poucas semanas em que atuou razoavelmente dentro da lei, a campanha de dona Dilma à presidência da República se transformou numa sucessão de gafes, equívocos e declarações desastradas da candidata. Alarmados com o uísque paraguaio que têm na mão, os petistas retomaram a velha tática que fez a ex-ministra subir alguns pontos nas pesquisas no começo deste ano: torrar ilegalmente recursos públicos e usar estruturas paraestatais para tentar turbinar a candidata. É o meu, o seu, o nosso dinheiro sendo empregado num projeto político de perpetuação de poder. Quem quer pagar?

Os exemplos se avolumam. Na quinta-feira, Lula utilizou cadeia nacional de rádio e TV para fazer campanha subliminar para dona Dilma. Foi apenas o primeiro sinal. No Dia do Trabalho, cinco estatais do governo (Petrobras, Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, BNDES e Eletrobrás) desembolsaram R$ 2 milhões numa série de festas de apoio a Dilma, como revelou a Folha de S.Paulo. Se é assim, eu também quero: tenho um projetinho de investimento e acho que, neste ritmo, o BNDES pode me financiar também – mas não se preocupe, leitor, ao contrário da campanha de Dilma, eu pago.

Milhares de trabalhadores compareceram a locais como o Campo de Bagatelle, zona norte de São Paulo, no intuito de comemorar seu dia, assistindo apresentações musicais e participando de sorteios de carros e até de apartamentos. Incautos, tiveram que ouvir pronunciamentos pró-Dilma entoados por militantes da CUT, da Força Sindical e da União Geral dos Trabalhadores. Foram para uma festa e deram de cara com um comício, coroado com um discurso da própria Dilma – que talvez tivesse se saído melhor se tivesse cantado “El día que me quieras”. Parabéns pra você assim ninguém merece.

Lula também falou em todas as ocasiões possíveis. No comício da Força Sindical, o deputado Paulo Pereira da Silva, acusado de cobrar propina para intermediar empréstimos com o BNDES, puxou o coro: “Olê, olê, olê, olá, Dilmaaa, Dilmaaa”. Sensata, e algo contrariada com aquela presepada toda, a numerosa plateia acompanhou com muxoxos.

Ministros do Tribunal Superior Eleitoral não têm dúvida: a participação de Lula e Dilma nos eventos pode muito bem ser questionada na Justiça. Trata-se de uso explícito da máquina pública em ato de pré-campanha. O presidente já foi multado em R$ 15 mil pelo TSE por ter pedido votos para seu fantoche em situações não permitidas pela lei. Mas continua a dar de ombros. Lei? Ora bolas!

O dinheiro gasto no 1º de Maio é troco perto do que as centrais estão recebendo do governo do PT. Em sua edição de hoje, o Valor Econômico informa que, desde 2008, R$ 146 milhões já foram transferidos a elas por meio do imposto sindical. Nesta segunda-feira, elas começam a receber parcelas de um bolo que pode chegar a mais R$ 100 milhões. Será que isso explica o entusiasmo de Paulinho da Força com Dilma no Show do Milhão sindicalista?

O dilema petista é que sua candidata só consegue sair do lugar quando há uma imensa engrenagem estatal por trás. Isso significa que o meu, o seu, o nosso dinheiro, caro leitor e contribuinte, é que move o moinho e os lindos sonhos delirantes de dona Dilma.

Nos últimos anos, durante quase todo o segundo mandato, Lula percorreu o Brasil levando Dilma a tiracolo, fingindo inaugurar obras que não estavam prontas, obras que funcionavam há séculos ou obras construídas por outrem. Foi o caso da barragem de João Leite, em Goiás, erguida em sua maior parte na gestão do ex-governador tucano Marconi Perillo, e de uma Unidade de Pronto-Atendimento em Juiz de Fora, tocada integralmente pelo governo Aécio Neves e pela prefeitura – igualmente tucana – da cidade.

Em cada um desses comícios disfarçados, milhões de reais foram gastos. Nas viagens presidenciais sempre há enormes dispêndios com segurança, combustível, divulgação, montagem de palanque, hospedagem do staff, alimentação, etc. Na caravana que rasgou o sertão nordestino em outubro do ano passado, até buffet de luxo tinha. Tudo pago com o meu, o seu, o nosso dinheirinho. Tudo para içar Dilma do seu pântano.

O problema é que, na seara petista, sobra grana e abunda um deserto de idéias e propostas para fazer um Brasil melhor. Mergulhada numa dinheirama sem fim, e com a ajudinha do meu, do seu, do nosso capilé, a campanha de dona Dilma não está nem um pouco preocupada com projetos para o futuro do país.

Seu staff, algo zonzo com a ressaca do scotch made in Assunción, dedica-se a questões, digamos, mais altivas: deve a candidata afinar a voz para falar à população? Deve manter o estilo “casca grossa” que lhe é tão peculiar? Deve usar vestidinhos vermelhos ou tailleurs rosa choque (azuis, claro, nem pensar...)? Cruéis dúvidas hamletianas.

Mostra O Globo que Dilma vive rodeada de assessores de tudo: imprensa, internet, imagem, comunicação, voz, twitter, blog, política, gestão. Entra até uma tal “teoria da Constelação”, “abordagem terapêutica que acredita que parte dos problemas enfrentados pelas pessoas deve-se a fatos que aconteceram no passado”, segundo a IstoÉ. Como se vê, dona Dilma é um poço até aqui de insegurança. Não demora muito terá uma, digamos, assessora de Dilma. Dinheiro para pagar tudo isso, claro, não falta: estão aí Petrobras, Caixa, Banco do Brasil, BNDES e Eletrobrás para não nos deixar falar sozinhos.

Vê-se que nem sobre a sua própria campanha a gerentona dos Pampas tem comando. O que fará ela se vencer a eleição? Pedirá ajuda para as centrais sindicais e cobrará delas o pagamento da fatura de seu glorioso 1º de Maio e a contrapartida dos repasses milionários do imposto sindical? Não nos iludamos: o preço desta aventura será pago com o meu, o seu, o nosso dinheirinho. Vai pagar? Eu tô fora.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Até o álbum de fotografias da oposição é melhor

Alguém deveria dar um álbum de figurinhas da Copa para dona Dilma. Repare lá na primeira página do mega-sucesso de vendas deste outono: a multinacional que o edita permite a qualquer mortal despontar entre as estrelas do futebol mundial. Qualquer Zé Mané pode ter seu cromo impresso em material adesivo. Até eu! Até ela!

O álbum de figurinhas da Copa do Mundo é a solução para o problema de escassez biográfica da petista de almanaque. Com ele, dona Dilma poderá, enfim, entrar no panteão dos grandes, pelo menos no mundo do futebol em forma de papel autocolante: Kaká, Messi, Cristiano Ronaldo. E poderá deixar em paz gente como Norma Bengell, cuja trajetória o pessoal da candidata do PT tentou “tomar emprestado”. Fica mais baratinho comprar a figurinha personalizada: o cupom vem junto com o álbum, que custa R$ 3,90.

É constrangedora a dificuldade que a candidata a presidente da República ungida por Lula tem para mostrar a que se presta e quais credenciais tem para exibir aos eleitores brasileiros. Talvez já seja conhecido por todos o mais recente episódio desta saga muito além do jardim às avessas – ao contrário de Chance, o jardineiro, o que Dilma diz passa a ser cada vez mais interpretado como idiotice mesmo e não como sabedoria em estado puro vinda da boca de um néscio. Mas não custa rememorá-lo.

Dias atrás, o site de campanha de dona Dilma postou, como parte de uma espécie de cineminha da vida da candidata, uma foto da atriz Norma Bengell na conhecida Passeata dos 100 mil, ocorrida no Rio. Foi uma maneira sutil de tentar associar, por meio de forçada parecença, a ex-guerrilheira à imagem da artista, que, assim como parte considerável da elite cultural brasileira, esteve na manifestação para protestar democraticamente contra o regime militar em 1968. Dilma não estava lá, ocupada que estava estudando manuais maoístas de guerrilha – a esquerda “casca dura” da qual ela fazia parte era contra manifestações como a passeata, relembra Ruy Castro na Folha de S. Paulo de hoje.

A campanha de Dilma, mais uma vez, tentou produzir falsificação. Não é a primeira, e, dado o desespero que se abate com a descoberta dos defeitos de fabricação da ciborgue-candidata, certamente não será a última. Se Dilma não tem biografia condizente para disputar a presidência, que se invente uma. Se não tem currículo acadêmico, que se forje um mestrado e mesmo um doutorado. Sem habilidade para falar respeitosamente com repórteres? Entrevistas pré-gravadas neles! E por aí vai.

A candidatura da oposição tem biografia de sobra pra mostrar. Dá até para emprestar umas fotografias para a campanha de dona Dilma. Lá se verá José Serra comandando a combativa UNE pró-reformas de base nos anos 60 (não esta gelatina anestesiada com milhões de ervanário público que hoje vaga por aí). Ao lado de líderes progressistas históricos, como Miguel Arraes e Leonel Brizola. Fazendo teatro com José Celso Martinez – até isso, caramba!

Do álbum, também saltarão fotos de José Serra nos seus 13 anos de exílio, ao lado de gente como Maria da Conceição Tavares, Carlos Lessa e Aníbal Pinto. Na volta ao país, nos comícios pela redemocratização do país. Ao lado de Tancredo Neves, já eleito, preparando seu programa de governo. Na equipe que discutia o Plano Real; na cadeira do ministro que criou os genéricos, que permitiram a milhões de brasileiros curar a saúde. Como prefeito da maior cidade do país e como governador do maior estado brasileiro. Acho que Serra não precisa do meu álbum de figurinhas da Copa...

‘Dilma Bengell’ não é um alienígena no script petista. É parte integrante do manual de composição da personagem. Dia sim, dia também, dona Dilma tem de fingir ser o que não é. Mas, até agora, nas poucas semanas em que pudemos vê-la longe das asas do presidente, os brasileiros nos deparamos com alguém que vaga “feito ectoplasma sem conseguir a incorporação adequada”, nas palavras de Dora Kramer a respeito da impagável participação da petista no ‘Brasil Urgente’ de José Luiz Datena.

Será preciso muito mais do que inventar uma biografia falsa para Dilma conseguir vencer – até Lula já se queixou dos “raciocínios sem conclusão” da ciborgue. Em curto-circuito, a candidata terá que passar por um verdadeiro recall, que inclui até sessões de fonoaudiologia para que seus pronunciamentos sejam mais leves, ou, para sermos mais precisos, minimamente compreensíveis.

Pré-programada, agora dona Dilma também precisará falar “cê”, ao invés de dizer “você”, tchê – em mais uma tentativa de mostrar quão mineira ela é, uai. A encruzilhada brasileira parece ser entre, de um lado, um candidato de carne e osso, com toda uma vida pública a mostrar, e, do outro, a figurinha que o PT, no seu aloprado laboratório, inventou para ser candidata – e que o Correio entrega em qualquer lugar do Brasil; é só enviar o cupom preenchido.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Viajando num belo monte de maionese

O governo Lula fechou mais um de seus meganegócios na semana que passou. Levou a leilão a megahidrelétrica de Belo Monte, com seus 11 mil megawatts de problemas. Questionada por todos os lados, a usina foi arrematada com um balde de subsídios públicos, sob variadas formas. Isso significa que ninguém sabe ao certo o quanto esta extravagância custará à sociedade brasileira, mas o petismo parece não se importar com isso: o negócio era fechar negócio.

Uma usina como Belo Monte é estratégica para o futuro do parque gerador nacional. É importante para assegurar o suprimento de energia pelos anos de crescimento econômico que deverão vir adiante. Portanto, um projeto estruturante. Mas isso não significa que se devesse pagar qualquer preço para tê-la. A escolha não é entre fazê-la ou não, mas sobre como fazê-la.

Belo Monte, situada no lado paraense da bacia do rio Xingu, poderá ser a terceira maior hidrelétrica do mundo, perdendo apenas para a chinesa Três Gargantas e a binacional Itaipu. Mas, tal como foi fechado o negócio, Belo Monte é como uma espada sobre nossas cabeças.

Ao longo destes mais de 20 anos de discussões, a extensão da área inundada diminuiu bastante, atenuando os impactos ambientais. Isso é ótimo. Mas mesmo atenuados, tais efeitos danosos persistiram, sem que se saiba ao certo quais dimensões alcançam. E isso é péssimo. Como começar a construir algo tão gigantesco com tantas dúvidas envolvidas?

Este é apenas um aspecto do problema. Antes de a usina ter sido levada a leilão na semana passada, TCU, Ibama e Ministério Público já haviam feito dezenas de ressalvas e apresentado montes de questionamentos sobre o projeto. O governo Lula deu de ombros e manteve o curso de seu cronograma. Para o PT, como se sabe, o negócio era fechar o negócio.

As várias questões obscuras – dimensão dos impactos socioambientais, custos do investimento, participação de fontes públicas de financiamento – poderiam ter sido mais bem resolvidas por meio da participação de especialistas independentes. Mas, não: tudo continua sendo feito entre quatro paredes. O que importa é fechar o negócio.

Havia alternativas que poderiam ter reduzido riscos e até ter incentivado maior competitividade no leilão. Mas, tal como ocorreu, a concorrência acabou restrita a uma disputa pantomímica como aquelas entre Ted Boy Marino e Fantomas em telequetes ensaiados de tardes de domingo. Uma destas alternativas era a que previa a motorização da hidrelétrica em duas etapas; o governo Lula deu de ombros.

Sob Dilma Rousseff e seu modelo, o complicado setor elétrico transformou-se numa colcha de retalhos. A transparência é mínima, num ambiente em que ninguém sabe ao certo quanto se paga pela energia que se consome – isso inclui você, leitor, e a fatura que todo mês a sua concessionária lhe entrega. Neste ambiente algo caótico, cada um dos agentes puxa a sardinha para sua lata, buscando assegurar vantagens. O governo aceita, porque só quer fazer negócio.

Belo Monte, da forma como foi licitada, põe mais um retalho nesta colcha. Alguém sabe quanto ela vai custar? Provavelmente não. Fala-se em R$ 19 bilhões e em até R$ 30 bilhões, sem contar os custos dos linhões de transmissão. Esta é uma questão fundamental para a definição de uma tarifa adequada e justa para o consumidor, mas o governo Lula se importa com isso?

O governo federal estabeleceu um teto para a tarifa que pareceu irrealista aos interessados mais acostumados às lides de geração de energia, mas não assustou ao frigorífico que aceitou correr o risco da empreitada e entrou o negócio. Generosos financiamentos do BNDES e outros bilhões em incentivos fiscais sustentaram a empreitada. A hiperhidrelétrica brasileira está agora nas mãos de um matadouro.

Aos poucos vai se sabendo de outras tantas “ajudinhas”, como a que revela O Globo em sua edição de hoje: na semana passada, o frigorífico vencedor acabara de abocanhar uns milhõezinhos do FGTS. Coincidência? Não custa lembrar: o dinheiro do FGTS é de todos os trabalhadores do país, seu fundo de garantia para o futuro; por que empregá-lo em empresas cuja gestão mostra-se temerária, como mostra o jornal?

Não será surpresa se, quando o calo apertar, a Aneel ou o governo de plantão espetarem alguma conta na fatura dos consumidores, mais uma sopa de letrinhas que ninguém sabe ao certo o que é, mas que servirá para lembrarmos ainda por um longo tempo da viagem na maionese que o governo Lula protagonizou e os custos que isso nos legará. Parece incrível, mas Belo Monte ainda pode nos sair muito mais caro do que podemos imaginar.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O bem-sucedido início da revoada tucana

Neste fim de semana, o Datafolha divulgou mais uma pesquisa de intenção de votos para presidente da República. José Serra continua liderando a corrida, com 38%. Ele tem dez pontos percentuais a mais do que a candidata do PT. Tudo considerado, temos que o início da revoada tucana está sendo muito bem-sucedido, embora não faltem “análises” sustentando que as primeiras ações de campanha do ex-governador não lhe renderam nenhum benefício.

Vamos refrescar a memória do leitor. Até meados de março, as apostas mais frequentes entre os “analistas” concentravam-se em quando a candidata do PT ultrapassaria Serra na preferência do eleitorado brasileiro. Era o tal “x”, em que as curvas de um e outro supostamente se cruzariam, em prejuízo do tucano. Isso não apenas não aconteceu até agora, como parece algo cada vez mais distante, embora riscos sempre haja – é do jogo da democracia, que todos respeitamos.

Serra mantém sólida e persistente margem de votos, praticamente inalterada desde o fim de 2009. Para quem só se lançou de fato há dez dias é um feito e tanto. Dona Dilma também teve, sim, uma ascensão considerável, mas precisou de três anos de árdua exposição para tanto. Este é o tempo em que ela esteve à frente do PAC e sua blitzkrieg marqueteira. A martelação diária rendeu à candidata o que já se esperava: os cerca de 30% que representam uma espécie de eleitorado cativo do PT no Brasil de hoje. Fosse Dilma ou Eduardo Suplicy o candidato, o percentual seria o mesmo.

Desde o lançamento do mal executado PAC, em janeiro de 2007, Dilma está em campanha, em flagrante desrespeito à lei. Colada em Lula, fez comícios por todo o Brasil para “inaugurar” editais de licitação, pedras fundamentais e até mesmo portos que ruiriam poucas semanas depois de abertos. Tudo isso com a mal-disfarçada pretensão de levá-la aos tais 30% de votos. Com um detalhe: o petismo previa que isso ocorreria no fim de 2009 e, já em março deste ano, ela ultrapassaria Serra nas pesquisas. Por enquanto, pura ilusão.

Serra não só manteve, como tem ampliado sua vantagem. No fim de fevereiro, de acordo com o mesmo Datafolha, ele tinha 32% das intenções e Dilma, 28%. Estacionada ela, o tucano saltou aos 38% aferidos agora. Quem, então, saiu-se melhor neste início de temporada pré-eleitoral: a sempre-candidata da máquina ou o recém-anunciado nome da oposição?

Na divisão por região, o ex-governador lidera no Norte/Centro-Oeste (39% x 30%), Sudeste (42% x 24%) e Sul (45% x 25%). No Nordeste, Dilma alcança 33% contra 27% do candidato tucano. José Serra também vence em todas as faixas etárias e todos os níveis de escolaridade. Entre as mulheres, a vantagem do tucano é ainda maior: Dilma só tem 22% do voto feminino. Sábias mulheres!

O que pode ter ocorrido para que Serra, nessa altura do campeonato, mantivesse números tão expressivos? Nos últimos meses, enquanto os comícios da dupla Lula e Dilma tornavam-se uma rotina diária e monótona pelo país afora, o candidato tucano praticamente não saía do estado que governava – São Paulo. Para desespero até de alguns aliados, concentrava-se em concluir de forma bem feita a missão que o povo paulista lhe havia atribuído nas eleições de 2006.

Quando, finalmente, se lançou pré-candidato, no último dia 10, Serra pôde deixar o comando do estado com muito a mostrar: as obras do Rodoanel, 110 novas escolas inauguradas, dez novos hospitais incorporados à rede pública estadual, 23 novas faculdades de tecnologia, 100 mil vagas abertas nas escolas técnicas. É isso o que mantém Serra líder nas pesquisas: o que ele fez por São Paulo e poderá fazer pelo Brasil. Tudo isso com finanças saneadas e a capacidade de investimento redobrada, algo raro entre os administradores brasileiros.

Em contrapartida, no comando do PAC, passados três anos Dilma só conseguiu entregar 11% das obras prometidas. Ou seja, se formos julgar o governo Lula apenas por aquilo que foi administrado pela candidata petista, pode-se dizer, com segurança, que foi um fiasco. Os avanços dos últimos anos ocorreram, principalmente, nos quesitos renda, consumo e ascensão social – frutos, em última análise, da estabilidade econômica conquistada pela gestão tucana e consolidada com a manutenção das políticas macroeconômicas.

Atualmente, na área de infraestrutura, a suposta seara de Dilma, estradas estão esburacadas, portos obsoletos, metrôs parados e grandes obras estruturantes, como a Transnordestina e a transposição do rio São Francisco, bastante atrasadas. Os avanços na educação fundamental e na saúde estagnaram. Nem toda propaganda do mundo consegue disfarçar essa realidade; o eleitor não é bobo.

A campanha ainda está apenas começando. Tudo indica que o PT irá utilizar todo tipo de armas para vencer, inclusive as não permitidas pela legislação. É uma guerra suja. Enquanto isso, Serra começou a viajar pelo Brasil levando propostas e esperanças. Foi assim na Bahia, em Alagoas e hoje em Minas. O entusiasmo é visível, diante de uma plataforma que busca construir um futuro melhor para os brasileiros. Do outro lado, nos seus primeiros passos sem Lula, Dilma Rousseff vem alternando ataques violentos à oposição e bizarros tropeços verbais, como já mostrado aqui. Fica cada dia mais claro que o eleitor está convencido de que o Brasil pode e quer mais.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Deu tilt na ciborgue

A candidatura de Dilma Rousseff vem sendo carpida pelo PT há pelo menos dois anos, ou três se considerarmos o nascimento do filho dela, o Programa de Aceleração do Crescimento – infante que apresenta problemas de desenvolvimento motor. Dilma Rousseff foi vendida pela arrogância petista como um verdadeiro Godzilla, aquele dinossauro fortão e bravo da TV. O mundo real, longe das asas do mestre Lula, a está transformando num Godzuck, o sobrinhozinho trapalhão do bicho.

Se este imagem pop não lhe é lá muito particular, ou se o leitor não é fã de histórias em quadrinhos ou desenhos animados daqueles que passavam nos programas infantis matinais, basta assistir este filminho de 38 segundos disponível no Youtube. Depois de vê-lo não vai nem precisar ler o que segue abaixo; as imagens são auto-explicativas, extremamente didáticas, e muito divertidas. Como o pequeno dinossaurinho japonês, Dilma é um verdadeiro desastre. Bastou deixá-la solta no mundo para a ciborgue dar tilt. A vida não está sopa por lá.

Seria enfadonho listar aqui as muitas patacoadas que a candidata do PT conseguiu produzir em menos de 12 dias de campanha. Começou com a mão na cabeça do pastor Garotinho; prosseguiu com a repugnante passagem e a escancarada falsidade de seus atos em Minas; passou pelas trombadas com o clã Gomes no Ceará; e teve na irretocável declaração sobre os exilados “que fugiram da luta” sua cereja do bolo.

Cesar Maia costuma usar uma metáfora meio démodé diante das novas tecnologias digitais, mas muito rica para a compreensão do processo eleitoral: na pré-campanha, grava-se a imagem do candidato no filme fotográfico; na campanha, esta imagem revela-se. Se isso vale – e pode estar certo que vale – o filme de Dilma queimou. A petista vai aos poucos murchando para o tamanho que de fato tem. Um Godzuck – e sem um pingo da graciosidade e simpatia dele.

Os jornais estão coalhados de notícias sobre as dificuldades da candidata. O Estadão as traduz em números: dona Dilma tem problemas para montar palanques em 15 dos 27 estados, onde vive 63% do eleitorado. Em contrapartida, o PSDB de José Serra tem candidatos próprios em 15 estados e “garantia de alianças sem maiores problemas em 24 das unidades da Federação”, completa o jornal.

Rusgas e mais rusgas regionais travam as viagens da candidata, informa a Folha de S.Paulo: “Em quase todos os estados há problemas em sua base que vão de disputas de aliados pela mesma vaga à insatisfação com a possibilidade de a ex-ministra pedir votos para o concorrente local”. “A escolha de viagens e agenda potencializou as dificuldades de uma candidata ‘sem jogo de cintura’ para situações difíceis”, conclui O Globo depois de ouvir seis cientistas políticos sobre os “tropeços” da ciborgue. Cadê a toda poderosa cuja perspectiva de poder seduzia como ouro 18 quilates guardado no pote do fim do arco-íris? Fumaça.

Diante das dificuldades que a dura realidade da vida está a lhes impor, os petistas esbravejam: complô, vilania, má-fé! De quem, caras-pálidas? Basta citar aqui um único texto publicado hoje na imprensa para ver quem está, de fato, agindo agora pautado por má-fé, vilania, complô...

Analisando a memorável frase “eu não fujo quando a situação fica difícil, não tenho medo da luta”, dita por Dilma no sábado, Fernando Rodrigues ocupou-se de ver quem estaria distorcendo as doces, cristalinas e puras palavras da ciborgue. Deu de cara com o exército que infesta a blogosfera, esta praga de gente. Mas, pera lá... “Petistas na internet inundaram blogs e sites de relacionamento interpretando a declaração de Dilma como um ataque velado a José Serra”, descobriu ele. O sociólogo petista Emir Sader foi um deles, informou o Painel da Folha. Bingo.

Dilma disse o que queria dizer. Seu séquito interpretou-a de forma idêntica à que ela agora reputa à “má-fé” e aos “mal-entendidos” de vilões da oposição. Logical conclusion: a candidata petista expressou, de fato, opinião segundo a qual quem se exilou o fez por ser fujão, mesma visão de mundo que tem um tão proeminente quanto caricato servidor das casernas na ditadura militar. Dilma e general Leônidas: tudo a ver.

À reação tão justa quanto indignada dos que lutaram pela reconquista da democracia no país a partir do exílio, sem apelar por explodir cofres, Dilma arreganhou seus dentões pontudos de loba: “Não tentem me atemorizar. Pode vir, pode atacar. Não pensem que, com isso, me atemorizarão, porque não vão”. Quanta humildade! Os amigos do PMDB podiam ressuscitar aquele bambolê para dona Dilma.

Isso é, sem retoques, o que o PT oferece aos brasileiros nestas eleições presidenciais: um tom belicoso (tudo a ver com quem defende a bomba atômica iraniana), a disseminação da cizânia, a divisão permanente do país. E olha que Dilma ainda tem 172 dias pela frente até a eleição de 3 de outubro... Godzilla não assusta mais e o Godzuck não consegue voar.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

O Brasil pode e quer mais

Um ser humano que sonha ver um Brasil sem divisões ou diferenças entre seus habitantes, caminhando solidariamente em direção ao progresso social, econômico e cultural. Um político que se orgulha de cada uma de suas ações em quase 50 anos de vida pública, com intuito de servir, e não ser aclamado. Um economista com lucidez e clareza suficientes para apontar os principais entraves ao desenvolvimento do país e como solucioná-los. Um gestor com conquistas concretas a mostrar em todos os postos onde serviu. Um presidente que irá liderar um processo, e não ser conduzido por eminências pardas, interesses corporativos ou ambições partidárias mesquinhas.

Estas são conclusões inevitáveis quando se ouve, lê ou relê o discurso com o qual José Serra se lançou pré-candidato à presidência da República no sábado passado em Brasília. O caminho, ele admitiu, será árduo. O engajamento nessa luta se dará pelo sonho de ver o Brasil podendo muito mais e não pela ambição por cargos, poder ou eventuais “boquinhas” a serem distribuídas em caso de vitória. A meta é criar melhores oportunidades de vida para todos os brasileiros, independentemente de serem ricos ou pobres, nortistas ou sulistas, brancos ou negros, jogadores de basquete ou enxadristas. O Brasil é de todos os brasileiros.

O Brasil que Serra quer é o mesmo do cidadão que não está pautado em ideologia ou modelos de gestão do Estado, mas pretende uma vida melhor para sua família. A energia de Serra está centrada naquelas pessoas que querem melhor saúde pública, garantia de boa educação para os filhos e aspiração de emprego para os jovens em ambiente de segurança e respeito à lei. Pessoas com valores, amantes das virtudes, que não querem o país dividido. O brasileiro comum, como eu e você, caro leitor.

O exemplo de seu pai, dono de uma banca de frutas no Mercado Municipal de São Paulo, mostrou qual é a origem de Serra e seus valores. “Um homem austero, severo, digno. Carregava caixa de frutas para que um dia eu pudesse carregar caixa de livros”, disse o ex-governador ao relembrar sua infância, vivida numa casa de quarto e sala numa vila operária do bairro paulistano da Mooca. Serra quer um país onde todos tenham oportunidade de desenvolver seu talento e possam ser justamente valorizados pelos seus esforços. É como se dissesse: “Se eu, que tive uma vida de limitações, consegui, por que outros não conseguirão?” Serra quer fazer com que todos possam. E o Brasil, de fato, pode mais.

Serra e o PSDB não têm medo do passado, não têm conflitos mal-resolvidos com a sua história. Num belo e contundente discurso, o governador Aécio Neves sublinhou as diferenças entre o modo tucano de servir ao Brasil e o interesse petista em assaltar o poder. Aécio colocou as coisas no devido lugar ao lembrar que, sistematicamente, o PT sempre se posicionou contra os principais avanços do país nos últimos 25 anos. Ao mesmo tempo, ele destacou que os tucanos, mesmo quando ainda no MDB e no PMDB, sempre se pautaram pelo interesse maior da nação e, generosa e solidariamente, lutaram pelas conquistas que interessavam a todos os brasileiros.

Não custa lembrar sempre que os petistas foram contra a eleição de Tancredo Neves, contra a Constituição de 1988, contra o governo de transição de Itamar Franco, contra o Plano Real, contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, entre outros “contra” medidas que melhoraram o Brasil. Aécio deixou claro que o Brasil não foi descoberto em 1º de janeiro de 2003 e que a roda da História gira desde muito antes. “O que me incomoda é ver o PT tentando vender aos brasileiros a ideia de que o Brasil das virtudes e do desenvolvimento foi construído por eles, quando, em vários momentos cruciais, eles preferiram priorizar o projeto partidário nacional”, resume Aécio em entrevista publicada na edição de hoje de O Estado de S.Paulo.

De volta ao presente, em seu discurso José Serra evitou enumerar os números que tem a apresentar. Desnecessariamente modesto, não citou, por exemplo, o espetacular avanço dos investimentos do governo de São Paulo sob seu comando: de R$ 25 bilhões na gestão passada para R$ 64 bilhões no atual quadriênio. Dinheiro voltado a melhorar a vida de quem vive no estado. Não há nada parecido com isso no governo federal, que mal conseguiu concluir 10% das obras que prometeu entregar até 2010 dentro do tão alardeado quanto vazio PAC conduzido por Dilma Rousseff.

Para o futuro, José Serra mostrou estar ciente do que precisa atacar para fazer o país crescer de maneira muito mais acelerada e consistente do que nos dias atuais, e sem descuidar do meio ambiente. Educação de mais qualidade, saúde ao alcance de todos, segurança para poder viver uma vida mais tranquila e digna. Conseguiu sintetizar os pontos de entrave em alguns poucos segundos: “Não podemos ter uma combinação perversa de falta de infraestrutura, inadequações da política macroeconômica, carga tributária sideral, aumento da rigidez fiscal e vertiginoso crescimento do déficit do balanço de pagamentos”. Concisão e lucidez.

União, serenidade, valorização das virtudes de um povo e do amor à pátria. É isto o que José Serra tem a oferecer à nação. É este futuro venturoso que nos faz crer que o Brasil pode mais. Pode mais do que o sectarismo com que o PT insiste em dividir o país; pode mais do que as falanges do ódio que não aceitam a democracia representativa e querem impor a sua vontade sobre a vontade popular; pode mais do que a violência que não aceita o estado de direito e afronta o Judiciário; pode mais do que aqueles que sequer compreendem como se construiu a História brasileira, mesmo que, em determinado momento, esta construção só fosse possível estando longe do país. Quanto mais mentiras disserem sobre nós, mais verdades diremos sobre eles, porque o Brasil pode e quer mais.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Uma loba em pele de loba, uai

Dilma Rousseff iniciou nesta semana uma “viagem sentimental” por suas “raízes”, num roteiro tão cuidadosamente estudado pelo marketing quanto o desenho das coroas de flores que deposita em cada monumento que vê pela frente. Chega a ser constrangedora a artificialidade da candidata ciborgue do PT. Mas nem berrar como cordeiro ele consegue: com sua beligerância de sempre, é a velha loba em pele de loba de priscas eras.

Em seu script calculado, dona Dilma encaixa um slogan de efeito por dia em seu repertório midiático. Frases para preencher espaço em páginas de jornal e ganhar alguns segundos em rádios e TV. É a forma de manter-se em evidência e, principalmente, de encobrir sua parca visão acerca de como construir um futuro melhor para o país. Longe, bem longe, dela, o Brasil pode mais.

Ao ser questionada, Dilma não apresenta uma proposta afirmativa sequer; tudo o que sabe fazer é atacar o passado, que, por mais pleonástico que possa parecer, já passou – menos para ela e seu desesperado PT. Talvez ela não saiba, mas o presidente Fernando Henrique Cardoso já disputou duas eleições contra Lula, e ganhou as duas. Dilma vai disputar a presidência da República é com José Serra e, quem sabe, Aécio Neves junto. Daí os pesadelos diários que fazem tremer a loba dentuça.

Dilma Rousseff move-se como um autômato teleguiado, sem ter um pingo do charme que, nos anos 70, emanava da Mulher Biônica do seriado de TV, encarnada pela bela Lindsay Wagner. Ontem, em Minas, a ciborgue dos Pampas esforçou-se por esconder seus “tchê” e substituí-los por “uai” improvisados aprendidos em massivos treinamentos e aprimorados com “consultores” locais. É de empalidecer. Logo, logo Dilma terá de se socorrer destes mesmos consultores para saber em que país vive: Será a Bolívia? A Venezuela? Cuba, talvez?

Se há algo mais revelador da desfaçatez da ação da loba ciborgue é a foto em que ela, ladeada por vários petistas, deposita flores no túmulo do ex-presidente Tancredo Neves em São João del Rei. O mesmo Tancredo que o seu PT não apenas escorraçou como se recusou a apoiar no colégio eleitoral em 1985. O mesmo Tancredo a cujas homenagens pelos 100 anos, que se completariam em 4 de março passado, nem ela nem qualquer dos ministros de Lula compareceu.

O mesmo Tancredo a quem “CUT e PT declaram guerra”, segundo manchete que o Jornal da Tarde estampou em sua edição de 11 de fevereiro de 1985, como relembra Almir Pazzianotto em artigo no Estadão de hoje. “A História é implacável e registra que o PT e a CUT foram responsáveis por 20 anos de atraso, até que o país recuperasse a estabilidade e o desenvolvimento graças ao Plano Real”, escreve o ex-ministro do Trabalho.

Em seu arremedo de fábula bíblica, dona Dilma melhor do que ninguém encarna a loba que tenta passar-se por cordeiro fofinho. Diz ela que bicho dentuço e de presas afiadas são “aqueles que tentarem fingir que não divergiram do governo, que não têm projeto diferente, que não propuseram o fim de políticas de governo”.

Uai, o que fez o PT senão o que agora acusa a candidata ciborgue? Votou contra o Plano Real, votou contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, recusou-se a referendar a Constituição de 1988, não apoiou Tancredo Neves (e, com isso, ajudou Paulo Maluf). Existisse à época, provavelmente teria combatido a Inconfidência Mineira...

É o mesmo PT que – para ficarmos no presente, com olhos voltados para o futuro, que é o que interessa – hoje apedreja políticas destinadas a valorizar professores e premiar o mérito na educação, como faz o governo Serra-Goldman em São Paulo.

Esta loba em pele de loba diz-se responsável pelas “brilhantes” obras do PAC. Mas quase nada entregou até agora. Tomemos o exemplo das Minas Gerais visitadas ontem: dos R$ 34,6 bilhões anunciados pelo governo Lula para o estado no período 2007-2010, até hoje o setor público federal investiu apenas R$ 4,3 bilhões, o que representa 12,4% do prometido. Ou seja, precisaria de mais 22 anos para executar tudo o que prometeu. Cruz credo! De fato, “é mais difícil quem nunca fez nada provar que fez”, como a autômata disse ontem, ao ser questionada sobre propostas concretas para seu estado natal.

A ciborgue de gerente gaba-se de ter bem-administrado o país quando estava na Casa Civil de Lula. Mas, para ver se mais este mito para em pé, tomemos como ilustração o que, infelizmente, ocorreu nesta segunda e terça-feiras no Rio, quando 103 pessoas morreram, na maior tragédia desta natureza ocorrida nos últimos 44 anos. Mostra o Estadão que, em 2009, o estado só recebeu 1% da verba federal para prevenção e preparação para desastres: foram R$ 1,6 milhão, que não dão para rigorosamente nada, de um total de R$ 646,6 milhões.

Deve ter sido por isso que Lula apelou a Deus, assim como restará à loba em pele de loba apelar, para ver se desempaca. Mas os dentões lhe denunciam a voragem pelo poder e neles dona Dilma logo, logo irá tropeçar. A cada dia fica mais evidente que o Brasil pode mais, muito mais, do que isso.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Mitologias, mentiras e mistificações

Quarta-feira passada, em sua despedida do Palácio do Planalto, dona Dilma manteve seu olhar pregado no passado, como sempre faz. A estratégia, que se repete a cada manifestação pública dela, tem motivos óbvios: é evidente o temor da ex-ministra de se comparar diretamente com José Serra. Ela não tem biografia, não tem um histórico de realizações nem tampouco tem a oferecer a perspectiva de um futuro melhor. Por isso, opta por apostar em mistificações de um presente que está longe de ser real em comparação com um passado forjado pelo PT – em atitude típica de regimes totalitários que tentam reescrever a História.

Se, ao invés de fazer ataques sem fundamento ao PSDB, a candidata resolvesse estudar o próprio país, saberia que, durante o período do governo Lula, o Brasil teve crescimento per capita médio de 2,29% desde 2002 até agora. Foi apenas o 13º maior da América Latina (entre 19 países) e o 9º da América do Sul, entre 10 países. Que grande sucesso é esse?

A petista também se gabou do “excepcional” comportamento do Brasil frente à crise econômica mundial. Provavelmente, ignora – ou, pior, tenta esconder – que o país não foi o primeiro, nem o segundo e sequer o terceiro a se sair melhor da crise. Com o “espetacular crescimento” de -0,2% em 2009, aquele que Lula anuncia desde o início de seu governo, o Brasil teve o 104º melhor desempenho do mundo, de uma lista de 213 países.

Dilma também comemorou o suposto fato de que hoje o povo brasileiro “não aceita mais migalhas e projetos inacabados”. Faltou dizer que, na principal tarefa da qual foi responsável no atual governo, a condução do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), até agora a candidata só entregou 11% das ações prometidas.

A escolhida de Lula se orgulhou, com razão, dos inegáveis ganhos de consumo da população no atual governo, em especial nas regiões mais pobres. Mas jogou embaixo do tapete números recém-revisados pelo IBGE mostrando que, na gestão tucana, o PIB per capita nordestino aproximou-se bem mais da média nacional: passou de 42,29% para 46,44%, expansão de 4,15 pontos percentuais em oito anos. Lula só conseguiu uma melhora de 0,22 ponto percentual nos cinco primeiros anos de governo. O propalado avanço dos nordestinos em direção à menor desigualdade na gestão petista é mais um mito que os números oficiais – cruéis números – também implodem.

Dona Dilma pelo menos não mentiu quanto à saída de milhões de brasileiros da pobreza na última década. Mas se esqueceu de dizer que, entre 2002 e 2008, caímos do 72º para o 75º no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), a lista elaborada pela ONU que inclui dados sobre renda, mortalidade, esperança de vida e educação. Além disso, como lembrou o ex-governador Aécio Neves, em entrevista à revista Veja, nada seria possível se não fosse a arquitetura econômica herdada do Plano Real.

E, talvez mais revelador de seu pronunciamento, a ministra praticamente não falou dela mesma na despedida. Preferiu louvar o presidente Lula por 28 vezes, chamando-o sempre de “senhor”. Deixou claro, portanto, que prefere ser conduzida a conduzir. Mostrou que, mesmo podendo ser presidente da República, estará mais para cumprir ordens e dizer “sim senhor” a Lula e ao PT, não importa o que venham a pedir.

Muito melhor será eleger alguém com personalidade própria, com idéias próprias e adequadas para fazer do nosso país um lugar melhor para se viver. Alguém com quem o Brasil pode mais: José Serra.