quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Déficit externo rifa futuro do país

Em economia, mais importante que dispor de uma situação favorável no presente é criar condições para que a bonança se mantenha no futuro. É mais ou menos como na história da cigarra e da formiga: bons gestores da coisa pública nunca têm tempo de ficar na janelinha cantarolando. Mas o que está ocorrendo no governo atual está mais para trinados e solfejos. O país está rifando seu futuro ao aumentar desmesuradamente sua dependência em relação ao capital externo.

No ano passado, pela segunda vez consecutiva, o país voltou a ter déficit nas suas transações com o exterior. Segundo dados divulgados pelo Banco Central nesta manhã, o rombo foi de US$ 24,3 bilhões, o equivalente a 1,55% do PIB. (O “mercado” previa US$ 22 bi.) A trajetória é declinante desde 2006 e tende a piorar ainda mais neste e no próximo anos, quando o déficit pode chegar a US$ 90 bilhões, iguais a 4% do PIB, segundo projeções privadas.

O tal rombo resulta da queda expressiva que vem se verificando nos saldos da balança comercial (neste início de ano, ela está fortemente negativa) e na elevação do déficit da conta de serviços e rendas, principalmente pela maior remessa de lucros e dividendos pelas empresas multinacionais para suas matrizes no exterior. Outro item é a redução nos investimentos estrangeiros diretos no Brasil. O déficit de dezembro foi o maior da série histórica, ou seja, desde 1947.

O fator mais relevante aqui é a balança comercial. Até pouco tempo, ela vinha garantindo os dólares que fizeram com que as transações com o exterior tenham fechado no azul entre 2003 e 2007. No ano passado, o saldo comercial caiu a US$ 25,3 bilhões e agora caminha para a casa de US$ 11 bilhões neste ano e US$ 4,5 bilhões em 2011, segundo projeções captadas pelo Boletim Focus do BC. Para se ter dimensão mais precisa do tamanho da reversão neste caso, basta lembrar que em 2005 o saldo comercial brasileiro fora de US$ 45 bilhões.

Neste instante, as exportações brasileiras estão em forte declínio – em 2009, caíram 22%, na maior baixa desde 1950. Há razões mais amplas a explicar a queda, como a diminuição das compras por parte das economias mais poderosas, como os EUA e a União Européia. Mas há as jabuticabas de sempre: o supervalorizado câmbio brasileiro – em 2009, o real apreciou-se mais 34% –, nossas péssimas condições logísticas e nosso ineficiente sistema tributário.

Sem o empuxo das exportações, ficamos na dependência da entrada de capitais para investimento, empréstimos ou aplicações em bolsa para que as contas fechem. Ocorre que os investimentos estrangeiros diretos no Brasil caíram acentuadamente em 2009, de acordo com os dados divulgados pelo BC há pouco: foram US$ 25,9 bilhões, com queda de 42,4% na comparação com o ano anterior. O Brasil viu este indicador diminuir muito mais que em seus concorrentes China (-2,6%), Rússia (-41%) e Índia (-19%), segundo mostra a Folha de S.Paulo em sua edição de hoje, a partir de levantamento da Unctad. Na média mundial, a retração foi de 39%.

“O país está esperando atrair consideráveis volumes de investimento para os seus principais projetos, como os de infraestrutura e o pré-sal, e usar esses recursos para cobrir o buraco. Pode ser que não aconteça. O Brasil deve receber menos do que imaginava. E ainda surgem economistas defendendo a ideia de que o estágio de desenvolvimento no qual o país se encontra ‘permite’ que tenha contas externas ruins. Só faria sentido se fosse realmente possível contar com esses recursos de outros países. E não é o que a realidade internacional sugere”, alerta Rubens Ricupero, também na Folha. “É preciso tomar cuidado com a dependência excessiva do financiamento externo, especialmente em um momento no qual o investimento está diminuindo”.

Ter um país dependente de capitais externos num cenário ainda de incerteza é apostar alto num futuro tremendamente instável. E isso não é apenas papo de economista. Os efeitos no mundo real são diretos. “O déficit externo é do tamanho que o resto do mundo estiver disposto a financiar. Se os investidores começam a achar que o país está assumindo uma situação deficitária acima das suas possibilidades, a própria taxa de câmbio começa a mudar, o real se enfraquece e as importações ficam mais caras. O ciclo normal da política econômica, nesse caso, é clássico: a desvalorização da moeda local pressiona a inflação e a autoridade monetária eleva os juros para desaquecer a demanda”, escreveu Claudia Safatle na edição de ontem do Valor Econômico.

O risco é criar-se um constrangimento monumental à continuidade do crescimento da nossa economia. E não é exagero dizer que a redução dos ganhos externos já limita a geração de mais postos de trabalho dentro do país. Para dar contornos mais nítidos a este drama, basta lembrar que no ano passado cerca de 500 empresas tiveram de deixar de exportar, conforme mostrou a mais recente edição do Brasil Real, análise de conjuntura editada pelo Instituto Teotônio Vilela. É provável que tenham colocado muito gente na rua em razão disso.