quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Compre uma Copa do Mundo, e pague duas

Há um mês, o presidente Lula aproveitou uma solenidade pública para pedir que os órgãos oficiais de fiscalização “afrouxassem” o controle sobre os gastos que o governo brasileiro fará para preparar a Copa do Mundo de 2014. Aos poucos, as razões do pedido presidencial vão ficando claras, a começar pelo que revela a Folha de S.Paulo em sua edição desta quarta-feira: “Copa no Brasil custa mais que o dobro da africana”, grita a manchete. Mau começo.

O texto revela que o Brasil prevê gastar R$ 17,52 bilhões na construção e reforma de arenas, transporte e obras no entorno dos estádios. Uma primeira lista de projetos para a Copa-2014 foi divulgada no início de fevereiro pelo governo federal: são 59 obras, sendo 12 delas em estádios. Verbas federais, estaduais e privadas estão envolvidas, mas o grosso virá da Viúva.

Na África do Sul, que este ano realiza seu Mundial, os custos totais são de 33 bilhões de rands, o equivalente a R$ 8 bilhões. Ou seja, o Brasil vai realizar uma Copa do Mundo e pagar por duas. Numa situação tamanhamente suspeita como esta, Lula quer que a fiscalização feche os olhos. Pra quê? E por quê? Conclua o leitor como quiser, sem esquecer que o governo em questão é do PT, o do mensalão.

O ministro dos Esportes preferiu culpar o mensageiro pela má notícia. “Acho que este valor (o africano) é muito maior. Você já foi até lá?”. Não estamos aqui diante de números que, torturados, confessam quaisquer coisas: a cifra sul-africana é oficial, senhor ministro. O pior é não saber aonde irá parar a nossa conta, ainda mais se os olhos vigilantes do TCU, do Ministério Público e assemelhados forem vendados pela mão gorda do governo.

A tendência dos custos é de alta, ressalta a Folha. “Os custos de estádios, únicos que tinham estimativa feita no projeto da CBF, já mais do que dobraram em relação a 2007. Mais: ainda não houve previsão sobre os gastos com segurança, tecnologia e infraestrutura esportiva, como CTs.” Aeroportos, cada vez mais estrangulados, também estão fora da conta.

Dos gastos previstos nas obras para a Copa de 2014, a maior parte será bancada por fontes estatais: 94% dos custos dos estádios serão de responsabilidade dos governos federal e estaduais, segundo o Ministério do Esporte.

Para piorar, até agora ninguém apresentou projetos para acessar as linhas oficiais, conforme mostrou também a Folha em edição do último dia 9. Março é a data marcada pela Fifa para início das obras em 12 estádios que serão usados na Copa, mas o BNDES ainda não recebeu pedido oficial de nenhum dos responsáveis. R$ 4,8 bilhões sairão do banco.

Um governo que se regozija de ter (sic) “retomado o planejamento estratégico no país” tem muito a explicar numa situação como esta: obras que não decolam, preços que voam nas alturas. No país do Carnaval, passada a festa, parece que a gestão petista está esperando o domingo de Páscoa para ressuscitar e fazer a coisa engatar. Só se o coelhinho ajudar: do jeito que vai, o Brasil não conseguirá organizar nem torneio de futebol de botão.