segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

É o lobo, é o lobo

Dóceis e em silêncio após sete anos usufruindo as benesses das verbas públicas, os setores radicais do Partido dos Trabalhadores voltaram à ofensiva para tentar emplacar suas velhas e carcomidas teses.

No 4º Congresso Nacional do PT, realizado esse fim de semana em Brasília, incluíram, nas diretrizes do programa de governo da pré-candidata Dilma Rousseff, medidas como a censura aos meios de comunicação, a redução da jornada de trabalho na marra e a taxação sobre grandes fortunas – sem que ninguém saiba, ao certo, o que é uma “grande fortuna”.

Impresso no papel, preto no branco, nas tais diretrizes está o que dona Dilma pretende oferecer ao país. Funciona como um “hedge”: ninguém poderá argumentar, mais tarde, que não sabia das reais intenções petistas. Está tudo lá. Espertamente, porém, a candidata-ministra cuida de amenizar em sua fala o que o papel, de bom grado, aceitou. O mistério é saber em qual lado do pêndulo a petista, uma vez eleita (Vade retro!), ficará.

O documento que contém as diretrizes do PT possui nome pomposo: “A Grande Transformação”. Lembra um texto petista de quase uma década atrás chamado "A Ruptura Necessária", convenientemente varrido para debaixo do tapete. A tal ruptura nada mais era do que a pregação pela implantação de um regime socialista no Brasil. Antes, como agora, os programas preconizam um governo autoritário no qual um Estado poderoso dá todas as cartas.

As tais diretrizes podem parecer bem intencionadas na aparência: quem é contra mexer na jornada para gerar mais emprego? Quem diverge de que os impostos sejam cobrados de forma mais justa? Mas, na prática, esse saco de bondades tente a resultar em efeitos opostos aos pretendidos. Por exemplo, a redução da jornada de trabalho em nada ajudaria cerca da metade da população economicamente ativa do Brasil, que simplesmente não tem emprego formal e muito menos jornada para ser reduzida.

A taxação das grandes fortunas irá aumentar ainda mais nossa carga tributária, que se aproxima de 40% do PIB, sem que quem tenha menos renda passe a pagar menos. Quanto ao controle do “monopólio dos meios de comunicação”, o que se pretende é bastante claro: censurar todo órgão independente que criticar o governo. Será esse o Brasil que Dilma tem a oferecer?

Convenientemente, a ministra emite sinais contraditórios. Nas dezenas de entrevistas que se dispõe a dar como nunca, em seu esforço de comunicação para ocupar espaços, busca amenizar sua histórica simpatia por políticas e regimes totalitárias. Em reuniões fechadas, porém, agradece o apoio dos radicais à sua pré-candidatura e troca afagos com emissários do protoditador venezuelano Hugo Chávez e dos governos de Cuba e Coréia do Norte, países onde o fuzilamento de dissidentes é prática corriqueira. É o movimento pendular, que visa preencher todos os espaços sem dizer ao certo em qual deles estará.

Em outro sinal de que se enamora do estatismo sem pejo, a candidata-ministra manifestou disposição de continuar o “reaparelhamento do Estado”. Faltou apenas dizer que, no atual governo, quem se beneficiou do tal “reaparelhamento” foram apenas seus companheiros petistas, embora o lulismo costume dizer que emprega mais para melhor servir a população. A este respeito, vejamos o que a realidade nos mostra: desde 2002, a quantidade de funcionários do Palácio do Planalto cresceu 150%, mas o número de servidores da saúde só aumentou em 0,5%, como mostrou O Globo em sua edição de domingo.

O movimento pendular de Dilma seria até natural em se tratando do oportunismo que sempre talhou as ações petistas – isso a cristã nova aprendeu rapidinho. O problema é o seguinte: até aqui o fiador desta ambiguidade foi Lula, bem ou mal alguém de passado e presente conhecidos. Mas e com Dilma, esta eminente incógnita: em que bases crer nela? Vale o que as retrógradas diretrizes do partido dela propõem ou vale o que é apenas dito nas entrevistas? Nem os petistas parecem saber, como fica claro neste elucidativo relato sobre uma das reuniões do congresso petista que O Estado de S.Paulo publica hoje.

Se alguém tem alguma dúvida sobre o lado para o qual pende Dilma, uma pista: um dos participantes mais aclamados no encontro do PT foi José Dirceu, “chefe da quadrilha” do mensalão e um dos coordenadores da campanha da ministra. Condenado ao ostracismo político após ter seu mandato cassado em dezembro de 2005, Dirceu foi a segunda personalidade mais aplaudida no evento. Depois de Dilma? Não. Depois do presidente Lula. Afinal, quem mandará no governo se o Brasil eleger Dilma Rousseff presidente? Quem está disposto a eleger este lobo em pele de cordeiro?