quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Obras de papel, candidata de fumaça

Depois de sete anos à frente do país, o governo do PT insiste em ficar mirando o passado. Nada contra comparações, desde que “sem mentir e sem descontextualizar”, como afirmou o presidente Fernando Henrique no lúcido artigo publicado no domingo passado. Mas parece claro o motivo que leva o petismo a olhar apenas para trás: o presente oferece um manancial de fragilidades do atual governo. É só abrir os jornais e ler.

Nesta quarta-feira, coube a O Globo, mais uma vez, mostrar a debilidade que impera nas obras e ações do governo. Ontem, Lula e sua candidata-ministra foram, mais uma vez, a Minas Gerais, na sanha de mostrar, “naturalmente”, a empatia dela com seu estado natal. Deram com os burros n'água.

Presidente e candidata “inauguraram” a Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, em Teófilo Otoni. O que era para ser festa gorou: a caravana eleitoreira foi recebida com vaias pelos universitários – um grupo que, convenhamos, jamais foi hostil ao petismo. Com carradas de razão, os alunos espezinharam os visitantes: depois de três anos em obras, a tal universidade ainda não passa de um campo de lama, à qual se chega por uma rua de terra ou “trilhas de boi”, na descrição do repórter Fábio Fabrini.

“Dos dez prédios, cinco ainda estão em construção e três sequer saíram do papel. (...) Em dias de chuva forte, carros e ônibus não atravessam a lama, o que tem levado ao cancelamento das aulas. No semestre passado, os alunos perderam 15 dias”, relata O Globo. É este o tipo de obra que dona Dilma quer que seja comparada uma a uma, “escola por escola”, na campanha deste ano? Novamente parafraseando Fernando Henrique: nada a temer, a briga é boa.

Mais um pouquinho do relato do repórter: “A UFVJM tem 54 professores, 26 a menos que o ideal. Os estudantes de serviço social, por exemplo, reclamam que, para os sete períodos do curso, há sete pessoas para ensinar”. Diz um aluno: “Estamos voltando aos tempos da escola primária, quando tínhamos uma ‘tia’ para várias matérias”. Ah, nem água pra beber tem lá, numa região em que o calor costuma castigar forte.

É significativa a similaridade entre o artificialismo das inaugurações feitas por Lula e o de sua candidata. É tudo uma pantomima sem fim, ancorada numa discurseira destinada a constranger a oposição, que não só tem muito a mostrar que fez, como a oferecer que fará. E não tem, mesmo, do que temer.

Dilma é um autômato tão flagrante que agora se esforça, em sua desesperada tentativa de se “mineirizar”, em encaixar “uai” em suas falas, provavelmente à custa de reprimir a duras penas seus “tchê” muito mais naturais. Nascida em Minas, mas gaúcha até a raiz do cabelo, ela sequer sabe que Governador Valadares, que fica no Vale do Aço, porção central de Minas, nada tem a ver com Juiz de Fora, localizada na Zona da Mata, já quase na divisa com o Rio - desconhecimento que demonstrou no evento de ontem, segundo relatou o Jornal da Tarde. Obras de papel, candidata de fumaça é o que o PT tem a oferecer ao futuro do país.

Se é para comparar, continuemos na seara do ensino e tomemos um exemplo do que vai em São Paulo, e se pretende ver expandido pelo país a partir do ano que vem. Desde o início do governo José Serra, foram criadas no estado 23 faculdades que formam tecnólogos (Fatec). Serra precisou de apenas metade do tempo que Lula disse ter precisado para realizar algo como “nunca antes na história”: até 2006, as Fatec eram 26 e terminarão este ano em 53, ou seja, mais que dobrarão.

É tudo escola novinha, com tijolo, asfalto, cimento, água na torneira, laboratório, biblioteca, professor em sala de aula e formação de qualidade. Quem estuda nestas faculdades – cuja procura, em alguns cursos, supera até a de universidades públicas mais tradicionais – tem emprego praticamente assegurado: nove em cada dez saem de lá direto para um trabalho. É tanta escola para entregar que falta tempo – ao contrário de Lula, que prefere gastar o seu com pedras fundamentais e canteiros em lama. E em nenhuma delas o governador do estado foi vaiado pelos estudantes.