segunda-feira, 15 de março de 2010

25 anos nesta manhã

Neste 15 de março, a redemocratização brasileira comemora 25 anos. Naquela manhã chuvosa de sexta-feira, há um quarto de século, tomava posse o então vice-presidente José Sarney. Na noite de véspera, o país fora surpreendido pela inesperada internação do presidente Tancredo Neves, eleito pelo Colégio Eleitoral. Os 36 dias de agonia e morte de Tancredo foram compartilhados por milhões de brasileiros esperançosos com o fim do regime de exceção.

Em um momento em que os líderes do governo flertam com ditaduras e seus tiranos, é necessário valorizar o papel do grupo político que firmou um compromisso inquebrantável com a volta da democracia. O Brasil, para desgosto de alguns e até contra sua vontade, não começou em 1º de janeiro de 2003.

As complexas negociações para que a população brasileira pudesse voltar a escolher seus próprios líderes e vivenciar a estabilidade política foram conduzidas por homens como Tancredo, Ulysses Guimarães, Franco Montoro, Mario Covas, Fernando Henrique Cardoso, Jarbas Vasconcellos, José Richa e José Serra.

Nenhum dos esforços seria bem-sucedido se as ações não tivessem o apoio de milhões de brasileiras e brasileiros que, entre 1983 e 1984, lotaram praças de todo o país clamando “eu quero votar para presidente”, em um grande movimento popular conhecido como “Diretas Já”.

A emenda Dante de Oliveira, que trazia de volta a democracia plena, foi derrotada em 26 de abril de 1984 no Congresso. Mas o estrago no regime militar já estava feito. A vitória de Tancredo Neves na eleição indireta de janeiro de 1985 foi saudada pelo povo como um avanço formidável.

Basta buscar na memória afetiva ou fazer uma pesquisa séria em arquivos históricos e jornais da época para conferir a euforia daqueles dias. Eram tempos de grandes esperanças. (A comoção era tanta que foi saudada, naquele mesmo 15 de março, por milhares de jovens cantando “Pro dia nascer feliz” em coro com Cazuza e o Barão Vermelho no Rock in Rio, numa homenagem à República que renascia.)

Embora Luiz Inácio Lula da Silva tenha chegado a participar de comícios do “Diretas Já”, seu Partido dos Trabalhadores se opôs à eleição de Tancredo. Chegou a expulsar três de seus deputados, que enxergaram ali um momento de transição histórica. Contra Tancredo estavam as forças do regime autoritário que se esvaía. Se o PT também estava contra Tancredo, com quem, portanto, se perfilava?

O processo histórico segue uma marcha de aperfeiçoamentos, sempre sujeitos a retrocessos. Instalada a Nova República, para sacramentar a transição o país necessitava de uma nova Constituição. Depois de meses de discussões no Congresso, com ampla participação da sociedade, o novo texto foi promulgado. Novamente sem a participação do PT, que se recusou a assinar a “Constituição Cidadã” de Ulysses.

A roda da História girou e o sonho inicial da Nova República descarrilou no pesadelo da superinflação, na eleição de um governo atado à corrupção e, felizmente, dentro dos limites institucionais, na defenestração de um presidente bufão do cargo. Novamente o PT se omitiu: porque quanto pior, melhor, não aceitou participar do governo de transição do presidente Itamar Franco.

Mas o mesmo grupo que apoiara Tancredo tinha clareza de que ainda restava muito a fazer pelo aperfeiçoamento do país. Eleito Fernando Henrique Cardoso, em 1994, pôs-se a implementar as reformas institucionais que preparariam o Brasil para os novos tempos. O PT manteve-se na mesma: opôs-se a todas as medidas que possibilitaram o fim da inflação, o reequilíbrio das contas públicas e, por consequência, a estabilidade política.

“A inflação e a instabilidade ameaçavam corroer o país. O PSDB apoiou o Plano Real, o Proer, a privatização dos bancos estaduais, a responsabilidade fiscal, a renegociação das dívidas dos estados, a abertura externa. Tudo isso foi essencial para o Brasil ser hoje o que é. O PT trabalhou e votou contra todas essas medidas”, relembra Marcus Pestana, deputado tucano de Minas, em artigo publicado no jornal O Tempo.

Esta longa digressão histórica talvez sirva para desnudar ao leitor a natureza das ações do PT: o partido sempre apostou na divisão do país. Não é de hoje e ainda persiste. Em contraposição, as forças que hoje estão na oposição sempre jogaram suas fichas no entendimento, na busca de avanços negociados, em aperfeiçoamentos progressivos. Para o bem da sociedade, mudanças graduais, sem ilusões de rupturas, como destaca o governador José Serra em artigo publicado na edição de hoje de O Estado de S.Paulo.

Irônica a História. Hoje, o partido de Lula e Dilma Rousseff é o que mais usufrui daquilo que atacou com todas as suas forças. Depois de uma trajetória em que se colocou contra tudo e contra todos, ao assumir o poder em 2003 encontrou instituições sólidas, regras estáveis, pré-condições dadas para avançar.

Ironias da História à parte, o PT ainda vai mais longe. Tenta, fraudulentamente, monopolizar, como se fosse dele, todas as conquistas de uma geração de brasileiros, conquistas que o partido não apoiou ou, pior, combateu com todas as suas forças.

Não fosse a redemocratização alcançada com Tancredo, os direitos advindos da Constituição de 1988 e a estabilidade arduamente conquistada com o Plano Real, não seria possível nenhum dos notáveis ganhos de consumo e ascensão social obtidos nesta década. Não fosse Tancredo, as conquistas da Constituição, a estabilidade econômica, Lula e os seus talvez tivessem sido relegados ao limbo da História, como párias que se opuseram a que a sociedade brasileira evoluísse na direção daquilo que pode e merece ser.

Esta não deixa de ser uma forma de tirania, uma maneira de totalitarismo – algo que vai ficando natural no figurino petista à medida que o governo Lula demonstra cada vez mais desapreço à democracia e ao respeito as direitos humanos. Reescrever a História com a tinta dos que hoje detêm o poder, como tentam fazer os petistas, é trair a nação.

Dividir para conquistar, máxima de guerra, de tiranias, continua a ser a tônica petista. O Brasil inteiro reverencia a memória de Tancredo Neves, a Nova República, mas os petistas não são capazes sequer de participar de uma homenagem institucional e solene ao presidente morto realizada pelo Congresso – como ocorreu no início do mês, sem a presença de um único prócer sequer do PT.

Neste 2010, no 25º ano da Nova República, o PT parece ter mais o que fazer do que celebrar o Brasil: lutar contra os mesmos meios de comunicação que lhe deram voz quando era um partido pequeno; aliar-se, sem nenhum pudor, a qualquer grupo (inclusive aos que se opuseram a Tancredo) que lhe permita perpetuar-se no poder; andar de braços dados com ditadores que teimam em não largar o poder ao redor do mundo.

Tucanos, o antigo PFL, hoje DEM, peemedebistas, trabalhistas, comunistas do velho Partidão, todos têm em comum a trajetória naturalmente associada aos progressos democráticos dos últimos 25 anos. Nenhum deles precisa recorrer ao artificialismo da fala, a interjeições forçadas, a “uais” ensaiados, para alinhar-se ao momento histórico que começou com Tancredo em Minas Gerais. Somos parte desta História. E sabemos quem sempre esteve do lado contrário.