quarta-feira, 24 de março de 2010

Com déficit em alta, país depende mais do exterior

Mês a mês a história se repete: o país está cada vez mais dependente do capital internacional para fechar suas contas. É o chamado déficit externo. Assunto árido, espinhoso, não deve, porém, ser negligenciado, como repetidamente fazem as autoridades do Banco Central, para quem o fato “não causa nenhuma preocupação”. Deveria.

O rombo nas contas externas está hoje em 1,66% do PIB. Já foi maior, mas isso não significa que seja desprezível. Equivale a dizer que o país não tem recursos correntes suficientes para honrar suas transações de bens e serviços e suas obrigações financeiras. País com déficit alto consome acima dos meios de que dispõe. Por não ter poupança suficiente, depende do ingresso de dólares para fechar suas contas. Este ano, o buraco deve ser de US$ 49 bilhões.

Na segunda-feira, o BC divulgou o resultado das contas externas em fevereiro: déficit de US$ 3,2 bilhões, o maior para este mês do ano desde 1947. 2010 será um ano de recordes: oficialmente o rombo previsto para até dezembro também será o maior em 63 anos. Mas, a julgar por projeções de mercado, poderá ser até mais. Pior ainda.

Há um particular nesta história: em geral, o déficit externo tende a ser coberto pelo ingresso de investimentos feitos no país (IED). Não será assim neste ano: o próprio BC já antevê para 2010 um IED US$ 4 bilhões abaixo do déficit estimado. Se projeções não oficiais estiverem corretas, tal rombo pode ser bem maior, de uns US$ 17 bilhões, decorrente de um saldo cadente na balança comercial.

Há quem diga que déficit externo é um sintoma da pujança da economia brasileira. Pode até ser, mas, uma vez persistindo, ele corre o risco de tornar-se uma amarra. “A tese segundo a qual um déficit em transações correntes é favorável à economia é aceitável somente na medida em que o país esteja adotando providências para aumentar sua poupança interna e melhorar sua balança comercial, a fim de comprovar aos financiadores do exterior que o risco que correm é limitado. Caso contrário, apesar de reservas internacionais elevadas, os credores começarão a duvidar da capacidade de o país honrar seus compromissos externos”, sintetizou O Estado de S.Paulo em sua edição de ontem.

A julgar pelo que ocorre com nosso comércio exterior, a perspectiva é oposta. Até esta semana, o saldo comercial acumulado no ano é 66% menor do que no mesmo período de 2009. As importações avançam num ritmo muito maior do que as exportações: 34% e 26%, respectivamente. O real valorizado e em alta colabora para o comportamento: deixa as compras feitas no exterior mais baratas e as vendas dos nossos exportadores mais difíceis.

A nossa poupança interna é igualmente insuficiente e um dos fatores para isso é que os gastos do governo são explosivos. Despesas em alta de um Estado agigantado não deixam espaço para que o país constitua seu próprio colchão de poupança e, em razão disso, o levam a ter de recorrer ao capital externo. A ascensão do crédito é apenas mais um aditivo, já que também desincentiva a poupança privada.

Grandes estadistas são aqueles que cuidam do presente com um olho plantado no futuro. Mais do que ter uma condição favorável nos dias atuais, como o país de fato hoje tem, é necessário assegurar que a bonança perdure no tempo, garantia que hoje não temos. É por isso que, embora espinhoso, árido, incompreensível para simples mortais, o déficit externo deva ser preocupação do governo. Cabe agir para que não se torne a “herança maldita” em que está se transformando.