quarta-feira, 17 de março de 2010

Lá vêm os juros subindo a ladeira

A discussão sobre taxa de juros não é nada popular e já foi muito mais ardente do que é hoje. Isso não significa, porém, que o tema não tenha importância. Pelo contrário. Taxa de juro é preço básico em qualquer economia e dele dependem todos os demais. Daí a relevância de se analisar o que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deve decidir hoje acerca da taxa básica que irá vigorar pelos próximos 45 dias no país.

A aposta preponderante entre os analistas do mercado financeiro é de que o Copom vai, sim, começar a elevar os juros imediatamente. Hoje a Selic, a taxa básica que vigora no país, está em 8,75% ao ano, embora na prática o que o mercado pratique nas operações de crédito seja muito, muito mesmo, mais.

Em qualquer cenário provável (manutenção ou aumento, já que a redução é fora de questão para o BC), o Brasil desponta como campeão mundial de juros. Esta é uma anomalia que já vem de longe, mas que surpreende ainda mais nos anos recentes, quando todo o resto do mundo empreendeu um significativo corte nas taxas como forma de enfrentar a crise econômica. Nós, as jabuticabas da política econômica mundial, não.

Os juros reais brasileiros – ou seja, a diferença entre a taxa nominal e a inflação – estão em 4% ao ano. A consultoria UpTrend, em relatório enviado ontem a seus clientes, informa que, nas 40 economias onde acompanha a taxa regularmente, a média é de 0,5% negativo. Nesse grupo, 23 países praticam juros reais de zero para baixo – juro negativo significa que a taxa nominal é menor do que a inflação prevista.

O Brasil segue incólume no topo. No segundo posto do ranking da UpTrend figura a Indonésia: lá os juros reais são de 2,6%. Caso o BC opte por elevar a Selic em 0,25 ponto percentual, a nossa taxa vai a 4,2%; se o aperto for maior, de 0,5 ponto, lideraremos com mais folga ainda, marcando 4,5% de juros reais ao ano. A ver o que o BC decide.

Juros maiores ou menores equivalem a menos ou mais consumo. Como o governo federal empreende uma gastança desenfreada nas suas contas, a tarefa da política monetária fica sobrecarregada. Se o consumo acelera, como tem sido a tônica na economia brasileira nos anos recentes, e o investimento em aumento da produção não acompanha, o jeito é cortar o chope da festa, servindo o antiácido amargo do juro.

Há implicações menos triviais da política de juros na vida do país. Tome-se os seus efeitos sobre as reservas cambiais. O Brasil tem hoje a montanha de US$ 243,138 bilhões acumulados nos cofres do BC, de acordo com levantamento desta segunda-feira. É um colchão e tanto para fazer frente a eventuais intempéries econômicas. A pergunta que alguns analistas fazem é: vale a pena mantê-lo?

Quanto maior o juro, maior tende a ser o ingresso de dólares, que vêm em busca de remunerações suculentas e fáceis, e maiores também as reservas. Embora seja um conforto e um anteparo, elas custam dinheiro ao país. Isso porque, para compô-las, o BC compra dólares no mercado, aplica-os em títulos estrangeiros e, para evitar excesso de moeda nacional (as mesmas usadas para comprar os dólares) em circulação no país, vende títulos públicos. Como nossos títulos pagam juros gordos e o dos estrangeiros é magrinho, acaba-se perdendo dinheiro.

Recentemente, pesquisadores da FGV calcularam este custo. De meados de 2006 para cá, o gasto equivale a R$ 1,7 bilhão por mês. É muito? É pouco? É suficiente? Eles não têm dúvida: é demais! Para comparar: o Bolsa-Família prevê aplicar R$ 13,1 bilhões para atender 12,7 milhões de famílias neste ano.

“Num país carente de investimentos na área social, o preço que a sociedade está pagando por este seguro bastante peculiar certamente causa arrepios. (...) A conclusão a que se chega é que a política de acumulação de reservas do BC é um verdadeiro desperdício de recursos”, escrevem os autores. Para eles, o país não precisa de mais do que US$ 60 bilhões no cofre das reservas. Tudo o mais é o nosso custo Meirelles, o vice dos sonhos de dona Dilma.