segunda-feira, 1 de março de 2010

Os maus companheiros

O comprometimento do atual governo com os direitos humanos é uma balela conveniente. As convicções democráticas só valem para atacar inimigos políticos. Quando a ditadura é comandada por algum “companheiro”, o pessoal do PT apressa-se a defendê-la. Quem paga o preço são dissidentes como o cubano Orlando Zapata, que morreu na semana passada após 85 dias de greve de fome contra o regime dos irmãos Castro. Em lugar da devida solidariedade oficial do Brasil, a tragédia que abateu sobre Zapata mereceu apenas declarações cínicas das nossas autoridades.

Por acaso, e para dissabor dos petistas, a comitiva presidencial brasileira estava em Cuba no momento da morte de Zapata. Entre uma e outra foto sorridente ao lado dos ditadores Fidel e Raúl Castro, o presidente, em raciocínio tortuoso, culpou o oposicionista pela sua própria morte. Lula disse “lamentar profundamente que uma pessoa se deixe morrer por uma greve de fome”.

Mas a reação estapafúrdia do presidente não terminou por aí. Ao ser questionado sobre seu silêncio em relação aos apelos das entidades ligadas aos direitos humanos em Cuba, Lula saiu-se com mais essa: “As pessoas precisam parar com o hábito de fazer cartas, guardarem para si e depois disserem que mandaram para os outros”. A carta chegou a ser entregue no consulado brasileiro em Havana, que, com seus punhos de renda, não tem hábito de se envolver com o drama sofrido pelos cubanos.

No texto, 75 prisioneiros de consciência pedem a interferência do presidente brasileiro em seu favor. Em tom que chega a ser laudatório, afirmam considerar que Lula “poderia contribuir significativamente para a felicidade e progresso do povo cubano”. Pobres cubanos; conheceram da forma mais cruel como atua o presidente brasileiro e sua diplomacia cínica.

Com as bênçãos do chefe, o festival de cinismo continuou pelos escalões inferiores. Marco Aurélio Garcia, espécie de artífice ideológico do governo, assim se pronunciou, numa manifestação que, esta sim, mais parece “esterco cultural”: “Há problemas de direitos humanos no mundo inteiro”. Já a candidata Dilma Rousseff fez o que o petismo espera dela: ficou em obsequioso silêncio. Não houve, entre os integrantes do governo, nenhuma palavra de conforto aos 200 presos políticos que padecem na ilha de Fidel e, muito menos, para os cinco dissidentes que iniciaram outra greve de fome contra a ditadura na semana passada.

A crítica mais contundente a nossa diplomacia veio de um jornal espanhol bastante admirado pelo petismo, o El País, que recentemente concedeu a Lula o título de “homem do ano de 2009”. Pelo jeito, após o apoio petista a Cuba, já se arrependeu. De acordo com o periódico, a ida de Lula a Havana “foi uma chance perdida de mostrar que é possível uma opção de esquerda capaz de oferecer progresso e bem-estar pelo fortalecimento da democracia”. Segundo o El País, as declarações confusas de Lula fizeram a mentira parecer verdade e o assassinato parecer respeitável. Assim como os cubanos, o periódico espanhol deve estar agora devidamente apresentado ao oportunismo petista...

Enquanto, internamente, o governo Lula faz barulho ao lançar o Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH), externamente o petismo se alia a quem desrespeita os mais óbvios desses direitos, como a defesa da vida e da liberdade de expressão. É o caso do apoio brasileiro ao protoditador Hugo Chávez e ao regime autoritário do Irã. Na prática, a paixão do PT pelos direitos humanos, pretensamente expressa no PNDH, é, digamos, para cubano ver.

A postura oficial da diplomacia brasileira sob Lula é esta: para os inimigos, a gritaria; para os amigos, a condescendência. Temos, portanto, uma política de conveniências, não de princípios. O que mais diretamente interessa aqui é que as mesmas lideranças que se lixam para o drama cubano e produziram as excrescências do PNDH são as mesmas que plasmaram a proposta de programa de governo avalizada pela candidata Dilma Rousseff há dez dias, quando sagrada pelo Congresso Nacional do PT. É este o tipo de gente que está do lado da ungida por Lula. Queremos o país governado por estes maus companheiros que se prestam a este tipo de atitude?