quarta-feira, 10 de março de 2010

Para Lula, direitos humanos é coisa de bandido

Lula é um sujeito inteligente. Presidente da República, sabe que suas palavras têm valor de posição de Estado quando se referem a assuntos internos de outras nações. Se Lula é inteligente e conhece o peso do que expressa, logo o que ele disse ontem acerca da situação dos presos políticos cubanos demonstra, de uma vez por todas e de forma cabal, seu total desapreço pela democracia e pelos direitos humanos.

Há duas semanas, Lula e sua comitiva tiveram o dissabor de passar por Cuba justo na hora em que um preso político, Orlando Zapata Tamayo, acabara de morrer em consequência de uma greve de fome que durava 85 dias. Instado a manifestar-se, produziu uma das pérolas do lulismo: culpou o morto pela sua própria desgraça, repreendeu os presos cubanos por lhe pedirem ajuda (na vã expectativa de estarem se dirigindo a um estadista e não a alguém da pequenez que o episódio desnudou, eles lhe enviaram uma carta) e ainda viu seus ventríloquos fazerem coro aos ditadores cubanos, responsabilizando os EUA pela penúria da ilha.

Frente a isso, Lula foi soterrado de críticas, todas justificáveis. Era de se imaginar que o sagaz líder tivesse até se arrependido do que dissera no calor caribenho da hora. Isto se ainda apostávamos no apreço do petista pelas liberdades democráticas e pela defesa dos direitos humanos. Ontem, porém, qualquer crença neste sentido ruiu por terra. Lula deixou claro, com todos os efes e erres, que tem horror à democracia.

Disse ele à agência internacional Associated Press: “Temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo cubanos de deter as pessoas em função da legislação de Cuba. A greve de fome não pode ser utilizada como um pretexto de direitos humanos para liberar as pessoas. Imagine se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade”. Desta vez, nem sol na cabeça tinha.

Aí está, senhoras e senhores, com tintas irretocáveis, o que pensa Luiz Inácio Lula da Silva sobre direitos e liberdades individuais: Lute por elas, seja um marginal. Se é assim, em contraposição, vale resgatar a contracultura sessentista de Hélio Oiticica: Seja marginal, seja herói.

Acusa-se a oposição de querer tisnar o mito em torno de Lula. Nada disso; é o próprio Lula que se encarrega de desnudar-se. Para o petista, os presos que lutam para libertar Cuba do jugo castrista são como, digamos, párias do PCC. Daqui a pouco, seguindo a cartilha de outro de seus amigos ditadores, o iraniano Mahmoud Ahmadinejad, o ex-preso político que virou presidente da República estará propondo um pelotãozinho de fuzilamento para os descontentes com o pensamento único.

Artigo de Nik Steinberg, do Human Rights Watch, publicado no The Washigton Post e reproduzido na edição de hoje de O Estado de S.Paulo, ilustra o que estes perigosos “marginais” cubanos estão querendo: “Pela lei de ‘periculosidade’ de Cuba, as autoridades podem prender pessoas que não cometeram nenhum crime, sob a suspeita de que poderiam cometê-lo no futuro. Atividades ‘perigosas’ incluem distribuir cópias da Declaração Universal dos Direitos Humanos, escrever artigos críticos ao governo e tentar formar um sindicato independente”. Ôpa, é melhor o Pauta em Ponto abrir o olho com estes petistas enamorados de Cuba...

Esta faceta antidemocrática do ex-preso político Lula vai, aos poucos, sendo percebida até pelos que sempre lhe teceram loas, como o El Pais, jornal queridinho do PT. Depois de ter conferido ao presidente brasileiro o título de “homem do ano” (sic) de 2009, o periódico global editado em Madri viu que comprara gato por lebre, algo admitido por seguidos editoriais e opiniões tão irados quanto perplexos com a defesa da tirania cubana feita gostosamente por Lula.

Curiosos estes petistas. Não veem o menor problema numa ditadura que condena mais de 200 pessoas às masmorras em razão de sua posição política, muitos delas por chamados “crimes de opinião”, ou seja a salutar possibilidade de criticar aquilo de que discordam. Mas esbravejam quando um dos seus próceres – o tesoureiro João Vaccari Neto – é pilhado roubando trabalhadores honestos, como no rumoroso caso Bancoop.

Será que desta vez a candidata-ministra tem algo a dizer? Parece que sim. Então vejamos o que balbuciou ela ontem: “Acho que o Vaccari tem todo o direito de defesa. Nós temos tido bastante clareza em defender o direito de as pessoas se defenderem antes de serem condenadas, acusadas e de fato afastadas do que fazem”. Vale também para os cubanos, dona Dilma, ou só pra quem rouba?